Pelo fim do cyberbullying

Não é de hoje que crianças e adolescentes se unem em grupos para disseminar fofocas, caçoar do físico e da aparência de alguém, desmoralizar e perseguir pessoas em razão de sua religião, etnia ou alguma preferência não aceita entre eles. Todo mundo que convive com crianças e jovens sabe como eles são capazes de praticar pequenas e grandes perversões. Debocham uns dos outros, criam os apelidos mais estranhos, reparam nas mínimas ?imperfeições?, não perdoam nada!

Esse comportamento não é novo, e certamente já causou muita dor e humilhação, transformando pessoas que carregaram para o resto da vida adulta as marcas das agressões, o que fez mudar a maneira como pesquisadores, médicos, educadores e a própria sociedade passaram a encarar estas práticas. Até que há cerca de 15 anos atrás essas provocações ganharam um nome, *bullying, *palavra do inglês que pode ser traduzida como ?intimidar? ou ?amedrontar?, sendo sua principal característica a agressão física, moral ou material, sempre intencional, repetida várias vezes sem uma motivação específica.

Mais recentemente, a tecnologia deu nova dinâmica ao problema. Mensagens em sites de relacionamento e torpedos com fotos e textos constrangedores em relação a vítima foram batizados de cyberbullying, *que pode ser ainda mais perverso do que o *bullying, *pois muitas vezes o agressor se esconde por meio dos recursos tecnológicos, tornando difícil a sua identificação. Facilita ainda para o agressor o fato de os jovens utilizarem cada vez mais ferramentas de internet e de troca de mensagens via celular, se expondo mais do que deviam. E, para piorar, a crueldade aumenta na medida em que a vítima passou a ficar *exposta em período integral, pois no espaço virtual as provocações estão permanentemente atormentando e ganhando adeptos, enquanto que antes o constrangimento ficava restrito aos momentos de convívio dentro da escola.

Os pais devem tentar identificar se os filhos se isolam, não se relacionam com colegas, ou relutam e inventam desculpas para não ir para a escola. E não devem proibir o uso da tecologia, afinal, a sociedade evoluiu e a ferramenta possibilita relacionamentos entre pessoas com as mesmas afinidades, de vários lugares do mundo, proporcionando uma troca cultural à distância. Mas devem deixar claro, quando dão ao filho acesso a um computador, tablet ou celular, quais são os riscos no uso da internet, e sempre manter o diálogo, conversar!

Em cartilha que criou sobre o assunto, a OAB/SP recomenda que recursos de comunicação, como a internet, não sejam rejeitados ou marginalizados, em virtude de atos ilícitos cometidos nesse meio cibernético. Ressalta, além disso, a importância de se romper a barreira digital que separa pais e filhos, distanciamento que não pode mais existir, mas que ainda ocorre porque muitos pais ficam alheios à conduta de seus filhos no ambiente virtual em razão do próprio desconhecimento que têm a respeito da informática.

Os pais também precisam entender que respeitar a privacidade dos filhos não pode ser sinônimo de ausência de supervisão, de vigilância, o que deve ser feito em consonância com o respeito aos valores da própria família, e é essencial que os filhos saibam que seus pais têm conhecimento do que ocorre na Internet e que podem confiar neles caso sofram alguma agressão no meio virtual, diz o documento.

Quando são pegos, os agressores costumam justificar o *bullying *como sendo uma brincadeira, mas o fato dessa prática ser comum entre os jovens não significa que ela seja normal, ou que não seja danosa, e deve ser coibida de forma enérgica pelos pais, pela escola, e se preciso, pela Justiça, pois é um ato de violência, um atentado à integridade psíquica, física e social de uma pessoa.

Felizmente o Poder Judiciário não tem se mostrado ausente, reafirmando que a tolerância, solidariedade e o respeito ainda são valores protegidos e resguardados em nosso meio social. A condenação criminal e cível com ressarcimento dos danos morais tem sido cada vez mais freqüentes, e desta forma, os crimes cibernéticos ou eletrônicos cometidos nos moldes do cyberbullying têm recebido uma resposta firme, pois todas as condutas podem ser alcançadas pela legislação penal, mesmo que o infrator seja menor, alcançado portanto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ajude a acabar com o cyberbullying. Se você viu ou ficou sabendo de alguma prática, não deve se omitir, e pode anonimamente denunciar o ato de violência.

O Estado do Rio de Janeiro conta com delegacia especializada, a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (Rua Prof. Clementino Fraga, 77 ? 2º andar ? Cidade Nova / Telefones 2334-9813 | 2332-8191). e o Ministério Público Federal também recebe denúncias através do site www.prrj.mpf.gov.br.