A atenção psicológica na construção da qualidade de vida

Atualmente muito se fala em qualidade de vida, contudo é difícil definir este conceito de uma forma que se aplique a todas as pessoas. Cada um de nós possui uma história de vida que é única e marcada por diferentes experiências e expectativas. Deste modo, o que é qualidade de vida para um, pode não o ser para o outro. Diante deste embaraço, resgato a definição de qualidade de vida realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que me parece ser a mais abrangente: ?qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores dos quais compartilha, em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.*É determinada pela distância entre expectativas individuais e a realidade, sendo que quanto menor a distância, melhor?*. Em outras palavras, quanto mais a nossa realidade de vida se distancia de nossos projetos e expectativas, menor será a nossa qualidade de vida. De acordo com está definição e a inserindo no contexto do tratamento do câncer, podemos perceber que a qualidade de vida do paciente é confrontada nos diversos aspectos de sua vida. Até o momento do diagnóstico a pessoa tem um determinado estilo de vida, com sua rotina, seu trabalho e suas relações pessoais com família, amigos e comunidade. Mas, no contexto do tratamento ocorrem grandes mudanças na vida da pessoa, as quais acabam abalando as suas expectativas e projetos futuros. No que abrange as relações familiares as mudanças impostas na fase de tratamento podem trazer grandes alterações na qualidade do convívio. Assim, quem sempre teve o papel de cuidar, experimenta o outro lado e passa a ser cuidado. E quem nunca cuidou assume esta responsabilidade com o familiar em tratamento. Para ambos os lados esta inversão de papéis pode ser muito difícil, é algo novo e inesperado. E o que é mais doloroso é que nestas horas se pensa que esta condição será permanente, mesmo não sendo este o caso. Vamos tratar agora da conclusão do tratamento. Nesta fase, normalmente o paciente prossegue num período de vigilância e de controle, com consultas médica e exames periódicos. Contudo, seria esperado que neste momento a pessoa retomasse o rumo de sua vida o mais próximo possível de como era antes, mas, para muitos, isso não ocorre. Surge uma pergunta: se o tratamento deveria agora ser visto como página virada, por que é que se tem a impressão de que a página não consegue virar? Depressão, ansiedade e baixa auto-estima podem ocorrer como conseqüência do diagnóstico, tratamento e das mudanças intensas ocorridas na vida do paciente e de seus familiares. Deste modo é possível que após a conclusão do tratamento, muitas pessoas mantenham estas comorbidades e devido a elas continuem com o estilo de vida e de relações familiares e sociais limitados, tais como eram no período do tratamento. Assim, não se pode dizer, em grande número de casos, que isto seja devido à doença ou problemas físicos em si, mas sim devido aos danos psicológicos causados pelo abalo na qualidade de vida. A importância da atenção psicológica ao paciente e aos seus familiares no contexto do câncer reside na necessidade de tratar estas comorbidades mencionadas. O dano psicológico afeta o nosso olhar sobre a vida, enxergamos tudo ?cinza?, e tem-se a impressão que não é possível sair disto. Mas, é importante que os pacientes e suas famílias saibam que existem outras possibilidades de vida que podem ser construídas (ou reconstruídas). Deixo aqui uma mensagem para todos: Assim como em um livro, a responsabilidade e a disposição de virar a página pertencem a cada um de nós, e se não fizermos isto, nunca conheceremos as boas surpresas que a página seguinte nos reserva. Por isso contratamos Stael Luiza Vieira de Resende, psicóloga formada pela UFSJ, profissional dedicada, responsável e muito carinhosa com os pacientes e familiares.