A (Des)Importância da Mobilidade Urbana

A Semana da Mobilidade Urbana instituída por organizações em várias cidades do mundo, de 16 a 22 de setembro tem o objetivo de discutir e propor soluções com vistas à solução dos problemas enfrentados pelas pessoas em seus deslocamentos.

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No Brasil e, em particular, em São José dos Campos, as questões abordadas parecem se limitar ao preço das passagens dos ônibus e à qualidade do transporte. Representam apenas a ponta de um iceberg, pois outros aspectos bem mais complexos, culturais em especial, deveriam ser aprofundados.

Se lançarmos um olhar mais crítico, podemos encontrar, em nosso município, evidências de que a questão da mobilidade sempre foi por nós abordada de forma superficial e paliativa. Concentramo-nos excessiva, prioritária e erroneamente, nas soluções de espaços para os automóveis, relegando a segundo plano as outras alternativas de deslocamento envolvendo diferentes modais de transporte de massas (não apenas ônibus e vans), bem como os espaços para ciclistas e pedestres.

mob3A frota de 385 ônibus urbanos transporta, em média, 227 mil passageiros por dia. Com duas viagens por dia para cada usuário, temos apenas 113.500 pessoas utilizando o transporte público municipal, o que equivale a 16% da população de 700 mil habitantes. Astronomicamente distantes de cidades como Vancouver no Canadá e Estocolmo, na Suécia, onde mais de 75% se utilizam dos transportes públicos locais.

mob5Ora, o transporte público aqui deixa a desejar, mas isto ocorre porque nós permitimos, porque nos acomodamos com administrações preocupadas apenas com o imediatismo eleitoreiro e descomprometidas com planejamentos de longo prazo. E, acima de tudo, porque endeusamos e não abrimos mão dos automóveis. Esta acomodação fica mais evidente quando analisamos as posturas tanto empresariais quanto as sindicais em relação a esta questão. O parque industrial de SJC possui hoje um efetivo em torno de 50 mil trabalhadores, algo como 100 mil passageiros/dia, transportados por 1000 ônibus aproximadamente, um contraste social incompreensível. Conforto para poucos, aperto para muitos e custo excessivo para todos!

A síndrome do sapo cozido, caracterizada pela* falta de percepção das mudanças ao redor, demonstra a *desimportância atribuída por empresários, entidades sindicais, administrações públicas e nós cidadãos, às múltiplas facetas da mobilidade e liberdade de escolha, face os resquícios da cultura paternalista. Neste sentido, é sintomático o caso do acesso a uma das maiores indústrias da região. A avenida com 3,5 Km de extensão, antes aberta ao público, chegou até a ser servida por uma linha de ônibus urbana. Hoje encontra-se restringida, inviabilizando o acesso de quem queira se dirigir à empresa por outro meio que não sejam apenas os motorizados e privados.

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Em relação aos pedestres e ciclistas, é flagrante a desimportância atribuída pela administração municipal. No Jardim Aquárius há hoje pelo menos duas obras cujos tapumes invadiram as calçadas, com autorização da prefeitura, dificultando a circulação de pedestres e impedindo a passagem de carrinhos de crianças ou cadeirantes, sem reclamações! Quanto aos ciclistas, não há, na administração, uma exigência de que todos os projetos contemplem a existência de espaços para este meio de transporte, pois as obras realizadas com frequência desconsideram estas possibilidades.

Desejaria que estas questões pudessem calar mais fundo em cada um de nós, de forma a podermos dar a devida importância e pensar, planejar e implementar uma* política de mobilidade urbana* mais humana, abrangente, socialmente igualitária e de longo prazo.

Paulo Sampaio
São José dos Campos, set/2013