A gota d’água: quando o transtorno alimentar começou

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Uma única frase pode mudar o rumo na vida de uma pessoa. Foi assim comigo.

Morei no Japão até os 13 anos. Quando completei 12, comecei o ginásio e precisava usar saia de prega, camisa social e blazer como uniforme. Então meu pai me acompanhou na busca pela roupa que ficasse perfeita no meu corpo. Até aquele dia eu era feliz comigo mesma.

Meu pai sempre foi meu herói, meu melhor amigo e o cara! Deve ser por isso que aquela frase fez tanto efeito. Não esperava ouvir dele, justamente dele, que precisava emagrecer.

Quando chegamos à loja de uniformes, pedi a numeração para a vendedora e logo fui experimentar. Estava super animada – lógico, a fase do ginásio no Japão é uma das mais importantes.

Sempre fui a mais alta, a mais forte e a mais diferente. Eu era um pouco gordinha, mas mesmo assim me sentia o máximo. Olhei no espelho e me vi linda. Saí do provador. Silêncio. Meu pai soltou a frase que ele nunca poderia ter dito.

“Filha, você está parecendo um balão.”

Meu mundo desmoronou e toda aquela imagem que eu tinha visto no espelho havia se apagado. Fiquei sem graça, sem saber o que falar. Sorte que a vendedora não entendia português. Nem precisei responder.

“Filha, vamos pra casa. Você vai fazer*dieta e exercícios. Voltamos semana que vem pra comprar, tá?”

Caminhada no bairro, séries e mais séries de abdominais e nada de pão. No começo era tortura, mas – infelizmente – passei a gostar da ideia de ficar mais magra. Uma semana depois voltamos à loja e experimentei o uniforme de novo. Quando olhei no espelho, mesmo com alguns quilos a menos, não estava mais me vendo como na primeira vez. Me vi triste e com uma vontade enorme de emagrecer.

Mesmo assim compramos a roupa. Não consigo me lembrar se meu pai ficou satisfeito ou não. Mas na minha cabeça ainda não era o suficiente. “Preciso ser magra para ser aceita” – coloquei isso na cabeça e não tirei mais. E foi assim que tudo começou.

Em alguns meses as roupas começaram a ficar largas demais. Passei a ouvir elogios dos meus pais sobre ter emagrecido. Então percebi que meu esforço estava dando certo. Como ainda estava longe de ficar abaixo do peso, a doença não foi percebida. Mas ela já tinha se instalado em mim.

Eu não culpo meu pai por tudo que passei. Mas com certeza a frase foi a gota d’água. Com anos de terapia percebi que sempre existem vários motivos para uma pessoa desenvolver qualquer tipo de transtorno. As causas que percebi são as diversas mudanças de escola, cidade e país, forçando a minha adaptação a todos esses lugares novos, o que era muito difícil. Além disso, não conseguia fazer as amizades durarem e sempre me sentia excluída no início.

Outro ponto que contribuiu para o desenvolvimento da doença foram as brigas constantes dos meus pais. Discutir é normal, mas aprendi que os filhos não têm que presenciar essas brigas. Isso fez com que eu quisesse chamar a atenção deles.

Toda vez que eu vinha ao Brasil também me fez criar o pensamento de que eu estava fora do padrão. O culto ao corpo é muito mais forte entre os brasileiros. Me sentia diferente das minhas colegas, por exemplo.

“Gordinha”, “fofinha”, “bochechuda”. Estes foram alguns dos apelidos que eu tive na infância, e acabaram guardados aqui dentro, e vieram à tona quando a gota d’água aconteceu. Já me peguei falando a mesma coisa para as minhas irmãs, mas logo me arrependi. Tento tomar o máximo de cuidado para não falar esses apelidos “fofos”.

Eu havia acumulado lixos demais. Minha psicóloga disse uma vez que todas as pessoas têm sujeira dentro de si e que isso precisa ser eliminado. O problema é que eu não consegui eliminar tão cedo. Então acabei descontando na comida – ou na falta dela.

O que eu entendo dessa experiência é que todos devem tomar cuidado com o que falam. Pensar antes de vomitar as palavras. Aprendi que as palavras têm poder. Poder de felicidade, amor, paz e até destruição. Por causa de palavras eu me autodestruí. Mas com palavras de conforto eu me reconstruí.

O importante é que hoje meu pai voltou a ser meu herói, meu melhor amigo e o cara. Ele já pode me abraçar forte sem medo de me machucar. E mesmo com o sentimento de culpa, ele jamais desistiu de mim nas horas que mais precisei. A minha gratidão é enorme. Ele fez de tudo para me manter assim: viva.

A gota d’água foi um aprendizado. Por isso a minha orientação é para não fazerem isso em casa, ok?

[![“O importante é que hoje meu pai voltou a ser meu herói, meu melhor amigo e o cara.”](https://s3.amazonaws.com/static.elefanteverde.com.br/blog/wp-content/uploads/sites/16/2014/05/pai.jpg)](https://s3.amazonaws.com/static.elefanteverde.com.br/blog/wp-content/uploads/sites/16/2014/05/pai.jpg)“O importante é que hoje meu pai voltou a ser meu herói, meu melhor amigo e o cara.”