A primeira rua da pequena aldeia

Voltar à pátria de seus antepassados pode parecer normal, aliás, acho que isso deveria ser até obrigatório. Na verdade, isso significa mais do que uma viagem a um país ou a uma região em que você tem origem ? trata-se de uma viagem ao seu cerne, à sua essência? ao próprio ?eu?! Um mergulho na sua história, entender bem o seu passado, pode não resolver o seu futuro, mas que melhora consideravelmente suas decisões, com certeza melhora. Óbvio que não foi apenas com esse intuito que cruzei o oceano; fiz por várias curiosidades a respeito da pátria de meus avós, e também por uma promessa ao meu avô ainda vivo? uma promessa deveras polêmica!

Pois bem, em uma das inúmeras conversas com ele, nas quais eu tentava convencê-lo a voltar a Portugal ? ele sempre insistindo que não, e que eu é que deveria ir -, ele disse que, assim que chegasse no Porto, eu deveria me encaminhar ao rio Douro e fazer xixi em sua margem. Pois é, vocês vão me perguntar se isso é promessa que se faça diante de todo o politicamente correto dos dias de hoje, mas ele tinha feito isso ao sair de lá, e foi a primeira coisa que pensou ao projetar minha ida.

Passagem na mão, eu e Mariza embarcamos rumo a uma terra desconhecida para mim. A primeira parada seria em Lisboa, cidade das sete colinas, do Castelo de São Jorge, da Alfama, do cheiro de sardinha frita em cada uma de suas inúmeras vielas, e do melancólico e doce som do fado, que nos remete a um Portugal da incomparável Amália? e também de Camões e Pessoa. Esse era o país que eu queria redescobrir, era isso que eu queria sentir na minha alma. Meu avô Inácio nunca pisou em Lisboa. Aliás, foi a menos lugares que eu no seu próprio país, e sem sombra de dúvida eu estava ali naquele momento com mente e espírito completamente ligados a ele. Sim, eu estava, eu senti isso!

Não ficamos na capital a princípio. Na verdade planejamos começar a viagem pelo Porto, onde alugaríamos um carro e no final da viagem conheceríamos mais a tão decantada Lisboa. Chegamos à Cidade do Porto à tarde após essa escala na Capital, e no dia seguinte iniciamos uma aventura de 14 dias por terras lusas. Carro alugado e mapa na mão (não tínhamos GPS portátil ainda), fomos a alguns lugares da cidade e, é claro, tive que ir à Ribeira das Naus para cumprir a promessa que fiz a ele. Mesmo politicamente incorreto eu fiz xixi no rio Douro? e tenho foto! Hahahaha!!!

Primeiro destino após o Porto seria um casamento de meu primo em Trás-os-Montes, região onde está plantada a minha origem, mais precisamente em Vila Real. Esse primo iria se casar naquela semana, eu não o conhecia, muito menos minha tia, sua mãe. Rumamos a caminho da sede do distrito em que teve origem a minha família, Santa Marta de Penaguião, local com cerca de 8.000 habitantes, pequeno como inúmeras vilas e distritos portugueses.

Chegando próximo a Vila Real, em meio a uma estrada federal, avisto de passagem a entrada de Torguêda, cidade onde nasceu meu avô! Prontamente eu parei no acostamento, pois a entrada era à esquerda da mão em que me encontrava; teria que seguir adiante para achar o próximo retorno. E é lógico que eu decidi fazer a famosa bandalha de que tanto nos ?orgulhamos?, bem no estilo carioca de ser!

Resolvi fazer a bandalha, mas a contragosto de Marisa ao meu lado. Olhei para um lado e para o outro, a ilegalidade estava quase certa, nada parecia conspirar contra, era uma reta de mais de 2 quilômetros, tudo livre para fazer merda!

Virando à esquerda, passando pelas duas pistas, acelerei o que pude e, para minha surpresa, tive a pior visão para uma bandalheira dessas: dei de cara, na curva à frente, com um carro da polícia que certamente viu a minha carioquice e prontamente ligou a luz de alerta, piscando o farol para eu parar. Só que eles estavam na mão ao contrário, e eu mais uma vez muito esperto achei que não daria tempo para eles manobrarem e me alcançarem antes de eu entrar depois da curva para Torguêda.

Após uns 5 minutos de estrada de terra, para meu espanto, o carro da polícia me alcançou em outra curva, sinalizando para eu parar? o que prontamente obedeci! Imaginem se não!? Ai, travou-se o diálogo abaixo:

- Good morning sir, can you exit the vehicle and show me your driver?s license? ? Placas de carros alugados na Europa têm um selo dizendo do aluguel do veículo.

  • Bom dia senhor, falo português! ? Achando que ia melhorar minha vida?kkk

  • Ah, bom, tinha que ser, ó pá! Faz sempre isso no Brasil? Isso é normal para você lá? ? Piorou mesmo minha vida?

  • Não senhor, não costumo fazer isso não, achei que? ? Fui cortado.

  • Tens que achar nada, ó pá, tens é que andar na lei, o que fizeste na estrada foi uma grande merda, além do mais o que te trás por essas bandas? ? Falava escrevendo a multa em um talão, nem olhava para mim.

  • Estou indo à cidade do meu avô, ele nasceu aqui em Torguêda há 70 anos e tal, sou o primeiro da família a voltar aqui e? ? Cortado novamente.

  • Pois voltou e já fizeste a primeira cagada, foste o primeiro a voltar e o primeiro a fazer merda, conta isso ao seu avô quando voltar ? Acho que ficou mais irritado ainda, mas descobri o porquê.

  • Pois é, mas ele já faleceu e estou apenas vindo para conhecer?

  • Pois, dá-me cá tua licença, deixa eu ver teu sobrenome, se for parente meu vais piorar tua vida, sou nascido em Torguêda! ? Putz!, estava difícil? ? Ah não, Nunes e Perez não parecem ser de parente. Sorte tua, viu? Tua companheira não dirige não? ? Falou isso se dirigindo a Marisa, que não saiu do carro nem para dar um oi. É evidente que ela tinha me avisado para não fazer aquela asneira, estava p? com toda razão!

  • Bom dia, minha senhora, peço que a partir de agora conduzas o veículo, teu marido é muito irresponsável, não podes deixar ele na condução, é um risco para os dois! ? Difícil esse momento hein?? ? Vou escoltá-los até Torguêda só porque é filho da terra. Merecias é que te levasse para o distrito, ó pá!!!

Pois é, fomos escoltados como prometido até a vila do meu avô, vila de construção romana próxima à Serra do Marão, que como quase todas as cidades portuguesas teve um declínio populacional e hoje possui menos habitantes do que 100 anos atrás, lugar onde parece que o tempo não atua. Até onde o simpático policial nos escoltou só passava um carro em chão de pedra batida. Ele nos deixou em frente a única igreja da vila.

Saltamos do carro e fomos em busca de alguma pista que me levaria à casa onde viveu meu avô Inácio. Foi muito difícil essa busca. Vocês hão de convir que, 70 anos após a saída dele, achar a casa onde ele nasceu seria procurar agulha no palheiro, em se tratando de uma vila europeia em franco declínio populacional. Ao chegarmos ? por volta das 12 horas -, não havia uma viva alma na rua, coisa comum para o interior de Portugal, vilas que mais parecem cidades-fantasma.

Cá eu estava quase a desistir quando Mariza, com o conhecido faro jornalístico, achou um boteco aberto, bem ao estilo do Rio Antigo. Parecia vazio, mas pelo menos o dono estava atrás de um balcão de mármore branco (lembra ou não lembra os botecos do Rio?). Chegamos no mesmo passo do tempo que comandava a vida dali. Pedi uma cerveja e tal, o conterrâneo atrás do balcão olhou com um ar de ?que raios ?traz? esses brasileiros aqui??. Ficamos de papo furado com ele ? sempre desconfiado -, mas que foi se soltando até pelo fato de sermos brasileiros. A simpatia por nós parece fator obrigatório na educação dos lusitanos de um modo geral. Na capital nem tanto, mas nos sentimos em casa também.

Tentei de todas as formas chegar à antiga casa do meu avô, com as informações que ainda tinha dele. Sabia bem das datas de sua partida de Portugal, dos nomes dos pais e tal, sempre informando isso ao senhorzinho atrás do balcão. Ele puxava pela memória? mas nada! Falou-me de inúmeros colegas patrícios que foram para além-mar, mas qual, não havia uma pista de que algum desses seria da família de meu avô. Até aquele instante, não tínhamos percebido ainda no bar, mas no canto direito, bem no canto, em uma área de sombra da luz que vinha da rua, que havia uma senhora sentada, com o tradicional luto português. Estava ela lá, sombria como o próprio luto que levaria até a morte. Nada falava, apenas nos observava. Pois eram essas as duas únicas pessoas naquele momento que víamos, e foi dessa senhora que veio a informação que precisávamos.

Ela não só conhecera minha bisavó como fora quase criada por ela. O elo se fechava ali: falou de todos os meus tios que foram para o Brasil, e nos levou por um caminho rústico que passava entre casas totalmente feita de pedras, uma viagem no tempo! Aquela rua, segundo ela, seria a primeira rua da pequena aldeia; foi a partir dela que a cidade fora crescendo. Um caminho curto, mas, para mim, muito longo!? Olhei cada pedaço por onde passava. Naquele caminho, aparentemente sem importância para muitos, estava o começo da minha história! Imaginem o significado desse momento para mim, chegamos ao lugar do qual meu avô sempre me falava e que por um segundo, apenas, eu achei que já conhecia? talvez um déjà vu!?

?Fonte seca? era o que estava escrito na pedra, na entrada de uma residência imponente. Claro que ali não era mais a casa dos meus avós. Aquela rústica construção de pedra cedeu lugar a uma mansão de dar inveja a muitos. Dona Maria, a senhora que nos acompanhava, nos mostrou pela grade uma ruína, ao lado, que fora a casa de meus ancestrais no começo do século. Fiquei ali parado por uns minutos olhando, pensando em tudo e em todos, na promessa que fiz a ele de ?retornar?, nos filhos que nunca se importaram de refazer esse caminho, na importância para mim de realizá-lo. Confesso que me senti de outra forma? não sei, mas a presença dele estava ali naquele momento, de alguma maneira eu tinha a certeza de que isso também fora importante para ele.

Ainda em silêncio, tirei do meio dos nossos mapas de viagem um retrato dele, que fiz logo que iniciei na profissão de fotógrafo. Ele gostava muito de fotografia e tinha uma curiosidade extrema quando comecei a fotografar profissionalmente. Tirei esse retrato em preto e branco e cuidadosamente coloquei em cima da pedra que ficava à entrada e tinha a inscrição ?Fonte Seca?. Era apenas uma singela homenagem a um homem que lutou contra todas as variáveis da vida, não montou nenhum império, muito menos foi rico, mas deixou um legado impagável para a geração futura dele, o respeito e a dignidade!

Minha viagem continuou fotograficamente, conheci até a pia batismal onde ele recebeu o sacramento religioso, fui ao casamento do primo citado anteriormente, um oficial do exército português.

Fotografei o casamento de bermuda enquanto todos os presentes estavam de terno? mais uma infração de um carioca doido! Mas conhecer Portugal é mais do que ir a um país, é conhecer* in loco* a alma lusa. Teria mais uma dezena de boas histórias para contar aqui dessa e de outras viagens à terra de Florbela Espanca, mas termino com um pensamento que escrevi em minha passagem por Lisboa:

Só entenderás a alma portuguesa quando fores sentir o cheiro da Alfama, quando cansares de subir a escadaria de São Crispim e olhares do alto do Castelo de São Jorge os telhados ainda molhados de orvalho dos casarios seculares de Lisboa.