A revolução das microcervejarias

Vários assuntos já foram abordados por aqui, sempre falando de cervejas especiais, escolas cervejeiras, estilos, malte, levedura, lúpulo. Mas o que está ocorrendo para que a cerveja hoje esteja tão em evidência? Obviamente que não existe uma resposta objetiva para esta questão, mas sim, muitas questões subjetivas.

Então, retomemos um pouco do que ocorreu com o vinho no Brasil. Voltemos uns 20 anos e percebemos que o vinho estava num momento muito parecido com o que hoje se encontra a cerveja. Na Europa, principalmente nos países de cultura vinícola sempre se falou em Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah, Tempranillo, vinhos do D?ouro, vinhos da Toscana ou vinhos de sobremesa. Enquanto isso no Brasil dos anos 90 falávamos, no máximo, em vinhos tintos e brancos.

A cerveja é e sempre foi parte da cultura de alguns países europeus, como já falamos aqui, Alemanha, Inglaterra e Bélgica principalmente, mas era algo que não pertencia ao Novo Mundo. O movimento das microcervejarias, a ?revolução cervejeira? como eles gostam de chamar, teve início nos Estados Unidos e hoje esquenta não só o mercado americano, que vem sofrendo mudanças desde o final dos anos 70, mas passou a levar inclusive mudanças para o Velho Mundo da cerveja, rebatendo também aqui em nós, graças ao bom Deus!!!

O cenário brasileiro recente, algo em torno de 10 anos atrás, não era muito diferente do americano nos idos dos anos 70, onde as tradicionais cervejas lagers, produzidas em escala, tomavam conta do mercado com total exclusividade, a ponto de toda uma história riquíssima ser quase deixada para trás.

Imagem de divulgação da Budweiser

Quase nada do que realmente se conhecia como cerveja na sua origem se fazia presente no mercado, apenas as pilsens, ou melhor, as american light lagers, produzidas com adjuntos que barateiam os custos e geram produtos muito neutros, com pouca personalidade e baixo amargor, que primam em tecnologia e logística para atingirem as massas, podendo ser bebidas em grandes quantidades devido ao baixo custo, baixo teores alcoólicos e neutralidade de sabor, dominando todos os espaços, tornando-se praticamente sinônimo de cerveja, e que estão presentes até os dias atuais e provavelmente sempre estarão, mas não mais como únicas opções!!!

Nos Estados Unidos, alguns acontecimentos inspiraram o movimento, mas o fato é que as coisas começaram a mudar no início dos anos 80, quando alguns entusiastas passaram a produzir suas próprias cervejas (homebrewers, ou cervejeiros caseiros) resgatando tradições de suas antigas culturas, e assim surgiram algumas microcervejarias e bares que servem suas próprias cervejas (brewpubs), atendendo ao mercado local.

Já em meados dos anos 90 o movimento começou a acelerar, chegando posteriormente a crescer algo em torno de 12% ao ano entre 2004 e 2008. As microcervejarias foram crescendo em qualidade e inovação, e a mente das pessoas foi se expandindo a ponto de hoje alguns acreditarem que nos Estados Unidos nasceu uma nova escola cervejeira. Foram estes heróis que fomentaram o mercado e criaram as bases para o que hoje é considerado um movimento já bem evoluído que se proliferou entre os americanos, num cenário que hoje conta com 1.072 brewpubs, 922 microcervejarias e 81 cervejarias que atendem o mercado regionalmente.

Brewpub em Orlando, nos Estados Unidos

O fato é que o movimento está mexendo com o mundo todo. Não sabemos se realmente o mercado americano deu a partida neste processo, mas o fato é que os números mundiais e também fatos isolados comprovam que existe uma onda de mudanças no cenário mundial, como por exemplo, a produção na Bélgica de cervejas mais lupuladas feitas, a princípio, para atender ao mercado americano, ávido por lúpulo.

Nas minhas andanças pela Europa pude confirmar isso quando ouvi do Mestre Cervejeiro da alemã Schneider que produtos destinados ao mercado externo (principalmente ao americano) estão fazendo muito sucesso internamente também. Quem diria que até os tradicionalíssimos alemães entraram na onda!!!

E o Brasil? Verdade seja dita, infelizmente ainda não temos um movimento organizado apenas por microcervejarias, o que na minha opinião deveria acontecer urgentemente. Devido a isso não temos números precisos a respeito do mercado e seu crescimento, mas o fato é que alguns dados mostram que estamos seguindo os passos dos americanos.

Em dez anos o número de microcervejarias brasileiras cresceu, partindo de algo perto de uma dezena até chegar ao número atual, próximo a duzentas. O Brasil é o terceiro consumidor mundial de cervejas (de todo gênero), ficando atrás apenas da China (por razões populacionais) e Estados Unidos. De acordo com o Guia da Cerveja 2013, a grande maioria das micro brasileiras estão localizadas nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Goiás.

Cervejas Noi, marca artesanal produzida em Niterói

De acordo com dados publicados no caderno de Economia e Negócios do Estadão, em outubro de 2012, com alguns dados fornecidos por profissionais da área, o mercado de cervejas especiais hoje no Brasil é de aproximadamente 7%, mas aí temos o que se costuma chamar de cervejas Premium, que inclui algumas cervejas um pouco mais puras do que as comerciais tradicionais ou ligeiramente diferenciadas, nicho criado também pelas grandes cervejarias como por exemplo, Heineken, Stella Artois e Bohemia Confraria, que introduziram produtos que diferem do comum.

O fato é que o mercado chamado de *Super Premium *está em torno de 3%, onde encontramos o supra sumo das cervejas, as de puro malte ou então elaboradas com ingredientes que enriqueçam a cerveja e que são elaboradas com profundo cuidado, seguindo técnicas de produção extremamente tradicionais ou mesmo criando cervejas  absolutamente vanguardistas, mas sem dúvida únicas! Contamos aí com artesanais brasileiras e importadas. Parece pouco, mas não é, e vem crescendo bastante, posso afirmar!!! Alguns especialistas em mercado cervejeiro chegam a dizer que esperam um crescimento que multiplica os números atuais por 13 na próxima década.

O número de rótulos importados que têm desembarcado por aqui é impressionante, bem como o número de lançamentos que as micro brasileiras tem feito! Difícil, até como profissional, acompanhar, e mais do que isso, provar e avaliar para podermos dar um parecer! Oh trabalho difícil!!! Haja fígado, literalmente!!!

Hoje temos no Brasil cervejarias que já fizeram bonito, inclusive em campeonatos internacionais! Estamos andando a passos largos e as microcervejarias estão inclusive pleiteando mudanças na legislação vigente para que a liberdade de expressão cervejeira seja total! A legislação brasileira é injusta e trata de maneira igual as microcervejarias e as cervejarias de porte, que praticamente só produzem as conhecidas cervejas de massa, e também trata de maneira diferenciada as gringas, que chegam por aqui, gerando desequilíbrio na concorrência, o que se reflete em barreiras na produção criativa e financeira. O gráfico abaixo mostra a composição do preço da cerveja artesanal no Brasil:

Listamos abaixo muitas das microcervejarias brasileiras, algumas das quais com produtos disponíveis no mercado do Rio de Janeiro e encontradas com certa facilidade. Diga-se de passagem que a cidade de Niterói é extremamente aberta a novidades cervejeiras, apresentando números de crescimento acima do mercado carioca, evoluindo em número de estabelecimentos e rótulos disponíveis muito rapidamente nos últimos dois anos. 

Divirtam-se!!! Cheers!!!

AS MICROCERVEJARIAS BRASILEIRAS:

Cervejaria Nói ? Niterói ? RJ

Cervejaria Mistura Clássica ? Volta Redonda ? RJ

Cervejaria Wäls ? Belo Horizonte ? MG

Falke Bier ? Ribeirão das Neves ? MG

Cervejaria Backer ? Belo Horizonte ? MG

Cervejaria Krug ? Belo Horizonte ? MG

Cervejaria Colorado ? Ribeirão Preto ? SP

Cervejaria Invicta ? Ribeirão Preto ? SP

Cervejaria Bamberg ? Votorantim ? SP

Baden Baden ? Campos do Jordão ? SP (hoje grupo Schincariol)

Cervejaria Abadessa ? Pareci Novo ? RS

Cervejaria Coruja ? Teutônia ? RS

Dado Bier ? Porto Alegre ? RS

Cervejaria Seasons ? Porto Alegre ? RS

Opa Bier ? Joinville ? SC

Cervejaria Bierland ? Blumenau ? SC

Cervejaria Bode Brown ? Curitiba ? SC

Cervejaria Eisenbahn ? Blumenau ? SC (Grupo Schincariol)

Cervejaria Klein ? Campo Largo ? PR

Cervejaria Way ? Pinhais ? PR

Cervejaria da Amazônia ? Belém ? PA