As novas tecnologias, este admirável mundo novo e o estranho bicho chamado homem

Mini Mundos

Sempre fui adepta a mudanças. Adoro tudo que desestruture de algum modo o que está consolidado e nos faça rever o mundo e nos rever, internamente. Por isso, desde o início, aderi alegremente às novas tecnologias – e com certo orgulho, digo que vi nascer a internet, porque sou da Geração X e não uma nativa digital.

Então, realmente minha velocidade e destreza em mandar um SMS não são as mesmas de uma menina de treze anos – por uma simples questão de adaptação e plasticidade cerebral. Ainda assim, tento entender e sei que não dá para negar os benefícios que vieram no bojo de tantas mudanças desta nova era. As novas gerações nem sabem do que estou falando, mas eu conheci os sites de bate papo. Para falar a verdade, acho até mais interessante que o Facebook, sob certos aspectos, para conhecer pessoas e se relacionar. Não havia tantas imagens pulando na tela e o texto era o mais importante. Não havia frases prontas e cada um tinha que mostrar a que veio, com suas próprias aspirações e ideologia – e claro, muita gente brincava de ser outra pessoa.

O ser humano sempre gostou desta fantasia, e não foi a tecnologia que nos trouxe isso, ela simplesmente agregou possibilidades novas neste quesito. O que me intriga e não só a mim, mas a todos os que se interessam de algum modo pelo desenvolvimento do cérebro e do comportamento humano é a forma como as pessoas estão se construindo e às relações, a partir das mídias sociais (Facebook, Twitter, Google+, etc.) que nos conectam às redes sociais (redes presenciais de pessoas).

É ótimo poder saber da vida e conversar com amigos com os quais teria perdido contato sem as mídias sociais. A informação corre rapidamente e as pessoas podem se ajudar em situações em que isto é importante. Sem contar na quantidade de informação e conhecimento que obtenho por meio da internet, ferramenta indispensável atualmente para estar ligado em pesquisas e descobertas mais recentes nas mais diversas áreas.

O conhecimento, sem dúvida, se democratizou.

De outro lado, nunca tive tanta informação sobre detalhes da vida alheia que não agregam nada de relevante à minha própria vida: sei o que uma pessoa com quem troquei meia dúzia de palavras, ou sequer isso, ganhou no dia dos namorados, sei o que fulano comeu hoje no almoço, vejo como uma conhecida está saindo para a balada, sei até a cor de esmalte novo que alguém da minha rede estreou. Pior: sei de brigas, amarguras, frustrações, fracassos – aspectos da vida privada que, em minha opinião, deveriam ficar restritos aos ouvidos dos amigos, do terapeuta, de alguém com quem realmente se compartilha a vida. Sem contar todos os fanatismos: sobre política, religião, causas por animais, todos dão opinião sobre tudo, e insistentemente, e quem era chato antes das redes sociais, fica mais chato ainda. Os fanatismos se exacerbam.

Alguém poderia argumentar que a chata sou eu. E sou mesmo, sob muitos aspectos (mas procuro restringir minha chatice àqueles que convivem comigo e me amam realmente, evito expô-la em público). Ou poderia perguntar por que, então não me desconecto. Não vejo mais essa possibilidade, pois seria como não estar no mundo, de certa forma. E também porque sou muito voyeur, para falar a verdade. Não no tangente à vida privada dos outros, que só me interessa quando eu sou realmente ligada à pessoa, mas gosto de observar como caminha a humanidade.

E no tangente às relações, acho que caminha de mal a pior.

As crianças e adolescentes usam cada vez mais o tablet – e jogos podem ser ótimos para o desenvolvimento, desde que usados com parcimônia. Conversam cada vez menos com seus pais. Muitos jovens saem cada vez menos de casa – “Para que? Posso falar com meus amigos pelo WhatsApp e Facebook”. Também usam as mídias sociais para conhecer gente e se encontrar, é verdade. Mas aí, quando se encontram, fica cada um conectado em seu celular, mergulhado num mundo só seu.

Nós, especialistas, estamos preocupados: onde vai parar o olho no olho, o face to face? Não prestam mais atenção às aulas, porque o Facebook atrai mais o interesse. Ninguém liga muito para a língua – já vi a palavra “jeito” escrita com “g”, sem contar outras aberrações.

Será que o tempo que os pais ficam conectados sabendo de detalhes tão relevantes de um outro que não conhecem direito não é um tempo que poderia estar destinando ao próprio filho, até mesmo pesquisando e descobrindo o mundo junto com ele, quem sabe na própria “rede”? Ou um tempo para estar realmente com aquele que está ali ao seu lado, num abraço apertado, numa conversa sobre o cotidiano, num afago no cabelo – na primeira de todas as redes sociais: a Família.

Estranho bicho homem, que se interessa mais em ver como foi o almoço do conhecido do que em tornar mais interessante e afetivo o almoço com a sua família.

Ah, sim, o mais importante é tirar fotos, muitos e muitos selfies para depois poder postar na “rede”…

Imagem: Tirinha da Inks Tiras