Beijinho, beijinho, tchau, tchau!

Fala, Macacada!

Fiquei meio atravessado com aquela situação do meu amigo Tatu-Bola, que entrou de gaiato nesta Copa do Mundo achando que ia emprestar seu nome para chamar atenção para a causa ambiental, mas pelo jeito só vai servir mesmo é pra vender boneco e camiseta. Ficou até sem nome, coitado, e pior, ainda virou chacota depois do apelido que recebeu. ?Fuleco é a mãe!?, é o que meus amigos da fauna mais houvem o bichinho vítima de bullying esbravejar.

Agora veio esta campanha para eleger o Muriqui para mascote dos Jogos Olímpicos de 2016, em que o objetivo oficial é gerar mobilização para tentar salvar a espécie que está ameaçada de extinção, e também a Mata Atlântica!

O Muriqui é o maior primata das Américas, um macaco pacífico conhecido pelo abraço fraterno que gosta de dar em seus pares. Como grande dispersor de sementes de espécies nativas da Mata, tem grande importância para a sua preservação e acho que é por isso que ganhou o heróico título de guardião da Mata Atlântica. Daí surgiu a campanha ?Abrace o Muriqui! Abrace a Mata Atlântica!?.

Como em uma produção hollywoodiana, não basta o mocinho livrar a própria pele, tem que salvar todo o ecossistema! Sobre as costas dos poucos muriquis que restaram, estão depositadas agora as esperanças para resolver o problema da Mata Atlântica. E tome venda de camiseta!

No Zoonit, tive contato com vários deles durante as reabilitações de animais que são feitas pela fundação de Niterói, e pude ter o prazer de conviver com este macaco boa praça. Mas sabe como é, né? Dócil, bonzinho, no meio deste mundo de ?seres evoluídos?, deu nisso! Da população original, estimada em 400 mil muriquis na época do descobrimento, restam apenas três mil deles, espalhados pelas manchas de florestas remanescentes na região Sudeste e no Paraná.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), o Brasil tem nos dias atuais um total de 130 espécies e subespécies ameaçadas de extinção, sendo 96 da espécie insetos, como borboletas, formigas, mariposas e libélulas, ou seja, sempre os inofensivos e bonitinhos. Se tivessem o bigode do Sarney, garanto que estavam na boa!

Com queimadas, caças e a invasão do* homo sapiens*, construindo cada vez mais prédios e cidades inteiras onde antes só havia natureza, os ecossistemas são destruídos e levam à extinção os animais que neles vivem. De acordo com dados da ciência, até hoje já foram identificados cerca de 1,4 milhões de espécies de vida animal. Desconfia-se, no entanto, que existam ainda mais de 30 milhões a ser identificadas, mas pode ser que nunca cheguemos a conhecer a maioria, já que a estimativa é de que 100 espécies desaparecem a cada dia devido ao desmatamento.

Junta-se a isso o contrabando e a extração inadequada de diversos tipos de plantas e de animais, sem qualquer fiscalização dos órgãos públicos responsáveis, e está pronta a missão impossível do Muriqui! Fácil, né, salvar a Mata Atlântica?

A Mata Atlântica brasileira, que agora cabe ao coitado salvar, é um dos sistemas florestais mais ameaçados do mundo, um bioma que originalmente cobria 1,2 milhão de km2 e hoje está reduzido a cerca de 7% de sua área inicial. Na Mata existem 24 espécies e subespécies de primatas, sendo que 15 estão ameaçadas ou criticamente ameaçadas de extinção.

Por enquanto, o único Muriqui que está livre de extinção no Brasil chama-se Luiz Guilherme da Conceição e joga futebol, mas para isso teve que se mudar para a China, depois de passar pelo Madureira, Vasco da Gama e Atlético Mineiro, entre outros.

Quando jogou pelo Avaí, em 2009, o atleta que ganhou o apelido por ter nascido em um distrito de Mangaratiba/RJ que tem o mesmo nome do macaco, foi o jogador mais ?caçado? do Brasileirão, onde sofreu 139 faltas! Perseguido nos gramados do Brasil e chamado de perna-de-pau pelos torcedores daqui, Muriqui atravessou o mundo e virou ídolo do seu novo time, o Guangzhou!

Precavido com a situação do Tatu-Bola e o ?abraço de urso? dos políticos brasileiros, para se salvar Luiz Guilherme achou melhor utilizar de outro gesto, o da Xuxa: beijinho, beijinho, tchau, tchau! E se deu bem?