Beleza em exposição permanente

Ao longo dessa semana, uma polêmica envolvendo um tema ligado à cultura e à cidade de Niterói ocupou jornais e sites: a restauração da imagem de Santa Bárbara na Fortaleza de Santa Cruz. De um lado, as críticas de especialistas à restauração que teria descaracterizado a imagem, e de outro a defesa da equipe da Fortaleza de Santa Cruz, afirmando que foi restaurado o ?padrão original? da imagem, conforme veio para o Brasil. Vale lembrar que o acervo do Forte não é tombado, o tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) abrange apenas a edificação.

Assim como na matéria se discute o que estaria por trás das restaurações, achei por bem buscar o que estaria por trás do interesse que a matéria me causou. E tive a sensação de que lembrar a belíssima Fortaleza é como lembrar aquela linda obra de arte que a gente tem na sala, mas que, de tanto conviver, só lembra que ela existe quando uma visita faz um elogio. Quantas obras de arte não temos construídas pelas ruas em que passamos todos os dias? A ocasião pareceu perfeita para lembrar rapidamente das nossas ?Fortalezas?, em exposição permanente. Felizmente Niterói tem sete delas: Fortaleza de Santa Cruz, Fortes de São Luiz, do Pico, da Boa Viagem, Gragoatá, Rio Branco e Imbuhy.

Primeira fortaleza erguida em volta da Baía de Guanabara, em 1555, a Fortaleza de Santa Cruz, é considerada uma jóia da engenharia militar brasileira, e sua construção utilizou blocos de granito maciço, presos por grampos de bronze e argamassa ? um dos primeiros usos desse material em fortificações brasileiras. Com a necessidade melhorar as defesas da baía, posteriormente, construiu-se as outras: o Forte Barão do Rio Branco, no século XVII; os fortes de São Luiz e do Pico, no século XVIII; e o Forte do Imbuhy, para onde foi levado o material mais moderno de artilharia de costa do Brasil, no início do século XX.

No Forte do Rio Branco, o maior atrativo são as duas praias com acesso restrito a 500 pessoas, entre militares e moradores da vizinhança. Foi de lá que partiram 600 soldados para a Segunda Guerra. O Forte do Rio Branco não está aberto ao público, mas é por ele que se chega ao forte do Pico, que fica 227 metros acima do nível do mar. Do alto, a paisagem se confunde com as ruínas do Forte São Luiz, um pouco mais abaixo.

É do alto do Forte do Pico a melhor vista do Forte Imbuhy, com uma surpresa: Uma rocha sobre o mar, guardava um segredo centenário: o paiol das fortificações, ao longo 18 salas em dois pavimentos, construídas no interior da pedra, escavada no início do século XX. Se formos enveredar por todas as histórias sobre essas obras, não dá vontade de parar, é como uma cachaça, uma viagem no tempo. Não por acaso, as fortificações de Niterói são as únicas construções fora do Rio que fazem parte do complexo tombado pela Unesco.

As obras de arte que temos ?construídas? em Niterói, ao alcance dos olhos, merecem não só a visita de moradores e turistas, mas também a nossa valorização. Justamente por essa sensação, o assunto da restauração da imagem de Santa Bárbara nos chama a atenção.

Aliás, uma última curiosidade. Uma das histórias contadas aos visitantes sobre a Fortaleza é exatamente sobre a imagem de Santa Bárbara, que teria permanecido no local por engano e nunca conseguiu ser levada ao seu destino original, o Forte de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, pois ?toda vez que eles tentavam levar a imagem, o mar ficava revolto e eles não conseguiam?. É como ?se Santa Bárbara tivesse preferido ficar aqui? brincam os militares.

Talvez devêssemos seguir o exemplo da Santa, ficar com nossos olhos mais por aqui, e prestigiar mais nossas tantas belas obras que estão em exposição permanente.