Boxe vs MMA

Zapeando o controle remoto no último sábado, já nas altas horas, decidi dar uma parada sem compromisso em uma luta de boxe. Trocavam socos, fui descobrir ao longo da luta, um mexicano boa pinta chamado Canelo Alvarez, contra um americano mal encarado, de nome Austin Trout.

A luta era no Texas, mas estava claro que as 40 mil pessoas que lotavam o local queriam ver o mexicano, que ao final venceu o combate por pontos e unificou o título dos médios-ligeiros de algumas daquelas associações que ninguém sabe a importância que têm dentro do esporte. Particularmente achei que o americano bateu mais, foi mais agressivo, mas cabeça de juiz e bumbum de neném?

O mexicano Canelo Alvarez em ação

Mas antes de me concentrar nos golpes e ?entrar na luta?, o que só ocorreu após um knock down sofrido por Trout, fiquei ali tentando lembrar quanto tempo fazia que eu não assistia à uma luta de boxe. Não valia contabilizar as lutas dos irmãos Falcão, afinal, nos Jogos Olímpicos a gente quer ver de tudo, então provavelmente o último golpe de boxe que vi foi o que aposentou Acelino Popó Freitas, na luta contra Juan Diaz em que o brasileiro cansou de apanhar e, entre um round e outro, desistiu de voltar para o combate.  Já se passaram seis anos, pesquisei!

Isto começa a explicar o longo período de desinteresse pelo boxe, que não é só meu, mas do brasileiro em geral, que hoje em dia prefere assistir ao MMA (Mixed Martial Arts) do UFC. A escassez de grandes ídolos fez com que perdêssemos a identificação com o boxe. Lembro de ficar a madrugada inteira esperando a luta do Mike Tyson, uma lenda como Muhammad Ali, George Foreman e tantos outros nomes marcantes do esporte, incluído aí o brasileiro Éder Jofre.

O ídolo Mike Tyson, demolidor

Na falta de um nome de ponta, serviram para manter a chama acesa o Popó, e antes dele até o folclórico Maguila, figura carismática que tinha um boxe abaixo da expectativa criada, fato do qual desconfiamos ao longo de toda a sua carreira, até a luta contra Evander Holyfield, quando a verdade ficou ali, estrebuchando ao vivo em nossas tevês.

Neste sábado, 27 de abril, a ESPN Brasil vai transmitir a luta entre o argentino Sergio Martinez e o britânico Martin Murray, ao vivo de Buenos Aires, a partir das 23 horas. O palco do espetáculo será o estádio do Velez Sarsfield, que estará lotado, com cerca de 50 mil pessoas assistindo a disputa do cinturão dos médios do Conselho Mundial de Boxe, que Martinez ganhou do mexicano Julio Cesar Chavez Jr., em setembro do ano passado, em Las Vegas.

Enquanto argentinos, britânicos e mexicanos estiverem assistindo a esta luta, nós e os americanos, que também queremos ver o pau comer, certamente estaremos ligados nas preliminares do UFC 159, com participantes de nomes bem mais familiares, como o do inglês Michael Bisping (que tomou uma coça de Vitor Belfort em São Paulo), do americano Roy Nelson, e não nos importaremos de virar a madrugada até que subam ao octagon o campeão dos meio-pesados Jon Jones e o falastrão Chael Sonnen para a luta da noite. O Brasil vai estar representado no evento por Vinny Pezão Magalhães, que medirá força com o americano Phil Davis.

Jones vs Sonnen, jogada de marketing

Considerado o melhor e mais completo lutador entre todos, mesmo levando em conta todas as categorias existentes, Jones é ?o cara?, o nome a ser batido dentro do UFC. Já Sonnen só vai estar lá graças a sua língua grande. Ardiloso e sempre provocador, sabe promover as lutas e desta forma vai abrindo caminho dentro do esporte, apesar de já contabilizar doze derrotas.

Por que então gastaremos nossas cervejas com um confronto armado pelo UFC para vender *pay-per-view *e de resultado tão óbvio, ignorando um combate importante e parelho de boxe, ainda com a possibilidade real de presenciar a um argentino levar uma surra?

A lutadora Ronda Rousey

É que conhecemos os nomes do UFC, e conhecemos os nomes do UFC porque eles trabalharam forte para que nós conhecêssemos estes caras e os alçasse ao posto de ídolos do esporte. E porque ali temos nossos próprios ídolos, made in Brasil. Nas primeiras filas do Prudential Center em Nova Jersey, estarão assistindo ao massacre de Sonnen os brazucas Anderson Silva, José Aldo, Rodrigo Minotauro, Júnior Cigano, Vitor Belfort, entre muitos outros.

O último exemplo da habilidade de Dana White, o poderoso chefão do UFC, para criar ídolos atende pelo nome de Ronda Rousey. Campeã do Strikeforce, Ronda foi logo sendo declarada campeã da categoria peso galo ao se transferir para o UFC, que até então não tinha disputa de MMA feminino. Ronda sabe lutar, têm seis vitórias em seis lutas, sempre por finalização no primeiro round, alcançadas por estratégicas chaves de braço. Ela é realmente uma lutadora de grosso calibre, mas principalmente, ela é loura, gata, de corpo escultural. E o segredo do sucesso do UFC está no fato de que não basta ser. Precisa parecer, e aparecer.

O boxe deve ter sentido o golpe, e agora está tentando aprender alguma coisa com Dana White. Pelo menos foi minha impressão ao assistir a luta entre o bonitão Canelo Alvarez e o feioso Austin Trout. Enquanto aguardavam no centro do ringue a pontuação dos juízes, e antes mesmo do anúncio oficial do resultado da luta, Canelo teve o cinturão de campeão preso em torno de seu corpo, o que gerou revolta de Trout e pedido de revanche. Mas quem mandou ser feio?