Café com leite?

Não, não estou falando do tradicional pingado, estou falando de um tempo que não volta mais, quando eu era uma menina com as pernas finas e riscadas por cortes, ralados e cicatrizes e que fazia parte do ?bando? dos meus dois irmãos.

Tive a felicidade de nascer entre dois irmãos, um dois anos mais velho e o outro dois anos mais novo, éramos de 1971, 1973 e 1975, uma escadinha que fez toda a diferença na minha vida e diz muito sobre a mulher que me tornei.

Com os dois e o bando deles, fui de rua, fui de briga, fui esperta, fui malandra, fui feliz, mas infelizmente, muitas vezes, queriam fazer de mim a menina café com leite.

Isso me deixava louca, não queria ser café com leite, não queria nem um metro de vantagem por ser menina, queria ser como eles, nem mais, nem menos, queria ser do bando.

Me esforçava pra isso, quantas lágrimas segurei, quantos palavrões ouvi e falei, quantas roupas rasguei, joias? Nem mesmo o anel de batismo podia carregar, caso contrário não seria como eles, não seria par de quem eu tanto admirava.

Lutei pelo meu status de parceira dos meninos com unhas e dentes, tinha minhas recaídas pelas bonecas, mas nunca corri de uma queimada, de uma disputa de pula cela, às vezes eles pulavam amarelinha comigo, jogavam ?STOP?, às vezes eu era a organizadora de um torneio de futebol de botão, afinal era importante ter uma mulher no grupo.

Foi com os meninos que aprendi meus princípios de lealdade, amizade, regras, coragem e principalmente a importância de um time. Com eles é preto no branco, olho por olho, dente por dente, o problema aparece e a solução vem logo atrás como se fosse uma sentença a ser cumprida. Não há discussão entre eles, quando muito um empurra-empurra, um dedo no olho e logo, fica tudo bem. Quando há uma crise no grupo, sempre existe alguém para desfazer o mal, uma palavra positiva que é o começo de um abraço, um deixa disso.

A convivência com esses garotos, fez de mim uma mulher mais segura diante dos homens, conquistei muitos amigos do sexo masculino, aprendi o que era impedimento antes de fazer a primeira comunhão e o mais importante eu sinto que eu não ?preciso? deles, eu admiro, eu gosto deles! Homens são do meu grupo, sempre estiveram por perto e sempre estarão.

Hoje, eu sei que quando insistiam para que eu fosse café com leite, só queriam me proteger da vida dura de ?menino?, fizeram de mim uma ?Lady? que sabe valorizar um homem, sobretudo um homem de palavra. Aos meus irmãos Maurício e Marcelo e  aos amigos da Rua João de Andrade Costa, meu muito obrigada e se quiserem, podem me chamar de café com leite, eu deixo!