?Causos? de Paracatu II? por Florival Ferreira

*?Causo? de futebol: Veludão e o sonho de apitar ?sob as luzes dos reflectores? *

veludao*

O saudoso Antônio Gouveia Damasceno, o* Veludão, tio do atual *vereador e campeão de votos Osvaldinho da Capoeira, era feliz. Além de suas atividades no seu Armazém Santo Antônio, que tinha uma boa freguesia, atuava como juiz de futebol, onde gozava do conceito de melhor árbitro de Paracatu. Quando da finalíssima de cada campeonato da cidade, era sempre o escalado para o apito. Até porque sendo um negro alto, forte, com braços de ébano tão grossos quanto as pernas das mulatas passistas das escolas de samba do Rio de Janeiro, impunha respeito, inclusive porque tinha condição de, se necessário, substituir a força do argumento pelo argumento da força.

O que pouca gente sabia é que Veludão carregava consigo uma secreta frustração. É que, naquela época, as transmissões televisivas ainda não existiam. O nosso árbitro ouvia encantado as transmissões radiofônicas noturnas de futebol. Invariavelmente, os narradores esportivos, de dentro dos grandes estádios brasileiros, caprichavam na linguagem, floreavam a narração e diziam o que estava a acontecer ?sob as luzes dos reflectores?. Mas Veludão, apesar da consagração unânime, não tivera, até então, a oportunidade de apitar um jogo num estádio iluminado. Daria qualquer coisa para que isso acontecesse ? pensava com os seus botões do uniforme preto de juiz.

Mas o destino ? ah! o destino? ? sempre dá um jeito de, em algum momento da vida, proporcionar às pessoas a oportunidade de realização de um sonho. Transcorria uma pré-temporada, aquele instante entre o campeonato passado e o próximo, quando as equipes do futebol profissional convidam times, inclusive amadores, para os jogos-treino preparatórios. Uma equipe de Brasília em tal situação convidou um time de Paracatu para um desses encontros festivos. Veludão foi convidado a integrar a delegação rumo ao Distrito Federal. Como o comércio andava meio fraco naqueles dias, acabou aceitando.

Na Capital da República, durante a recepção aos desportistas visitantes, todos tratados com a deferência devida aos conterrâneos do presidente JK, o fundador de Brasília, Veludão foi apresentado como o melhor árbitro de Paracatu. O time anfitrião, assim, gentilmente, fez questão de que ele apitasse o jogo. O árbitro ensaiou um mal dissimulado desinteresse, dizendo ?não, gente, que é isso? Estou aqui só a passeio?, mas, no fundo, estava louco para comandar a partida. Depois de mais um pouquinho de charme, aceitou a incumbência. Vestiu o uniforme preto que, ?coincidentemente?, levara na bagagem e entrou em campo junto com as duas equipes. Ao pisar o gramado, quase que o coração saltou do peito: o estádio ? coisa rara naqueles tempos ? era iluminado!!

Mas, que falta de sorte, o jogo estava sendo realizado durante o dia! ? lastimava ele enquanto corria em campo, lançando furtivos olhares para os aparatos de iluminação. Lá pela  terceira parte do segundo tempo da partida, o sol estava alto no céu. Mas, perder a oportunidade? Jamais! Veludão encheu o peito de ar e soprou fortemente o apito, interrompendo o jogo. Ninguém entendeu nada e todos perguntaram o motivo da interrupção. Para espanto geral, o juiz disse, então, que não havia a mínima condição de jogo, determinando que os reflectores fossem acesos. Todos tentaram argumentar o contrário, mas Veludão foi categórico: ? Quem decide se há ou não condição de jogo é o árbitro ou não é? Pois o árbitro sou eu e está decidido: os reflectores devem ser acesos agora!? ? sentenciou.

Sem outra alternativa, a administração do estádio determinou o acionamento do sistema de iluminação. Veludão olhou para o alto, sorriu feliz como um menino, realizado, e apitou reiniciado a partida, que comandou com um ininterrupto sorriso cândido nos lábios, estabelecendo, ainda, intermináveis minutos de prorrogação. E foi assim que Veludão, naquela tarde de abrasador e claríssimo sol de Brasília, apitou ?sob as luzes dos reflectores?!