"Causos" de Paracatu III - Por Florival Ferreira

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?Causo? de costumes ? De como Antônio Xico, o incorrigível sedutor, foi parar (e casar) na Polícia

Hoje em dia, os namoros, em sua maioria, são uma pouca vergonha, sim sinhô! É um tal de ?aquilo na mão, a mão naquilo?, só para começo de conversa. Senhora D?Abadia! O rapaz, ainda que não tenha emprego nem futuro, dorme (dorme?) na casa da moça, a moça (que nem sabe fritar um ovo!) dorme na casa do rapaz, e ? cruzes! ? no mesmo quarto. Tudo isso diante da condescendência dos pais que até incentivam: ?é melhor fazer dentro de casa do que na rua? ? capitulam, a um só tempo impotentes e resignados.
Mas, antigamente não era assim, não sinhô! Se o rapaz bulisse com moça virgem, ainda que disso não resultasse uma indesejada gravidez, era um escarcéu danado. A desonra tinha que ser lavada com o sangue do atrevido. Havia uma alternativa ao derramamento de sangue, igualmente radical: os dois pombinhos infratores, humilhados, eram conduzidos à presença do delegado de Polícia para um casamento compulsório, diante do qual tinham que dizer ?sim?, ainda que quisessem dizer ?não?.
Naqueles radicais anos, vivia em Paracatu um rapaz sedutor ? vamos chamá-lo assim -, conhecido como Antônio Xico. Tinha muita lábia, muito charme, oferecendo às reprimidas moçoilas de antanho a libertação que, no íntimo, desejavam. Freud explicava, então, como explica, hoje. Só que o que era feito na calada da noite, na sinuosidade dos becos escuros, volta e meia, acabava sendo descoberto após o raiar do sol. Antônio Xico e a sua ?vítima? eram, então, conduzidos à Delegacia de Polícia para o casamento, momento em que, por imposição da lei, tinham que declarar ?ser de gosto?, de livre e espontânea vontade, a união que se celebrava sob os trabucos do delegado e da família.
Só que Antônio Xico bolou uma saída para tais ocasiões. Consciente de que nada adiantaria a força do argumento diante do argumento da força, passou a concordar com todas as imposições quando levado à Delegacia. E, todo ouvidos, declarava concordar com o que dele era exigido. Mas com uma invariável ressalva: ?Concordo com o casamento, senhor Delegado! Mas não posso me casar de uma hora pra outra. Preciso de um tempo para tomar as providências necessárias?. Diante de tal conformismo, e na certeza de ter resolvido a contenda em paz, o delegado acabava concordando. Antônio Xico, aproveitando-se disso, sumia de Paracatu. Só reaparecia tempos depois, quando a poeira já tinha baixado.
Sedutor contumaz, Antônio Xico repetiu a estratégia por diversas vezes, sempre com sucesso. Pedia um prazo, sumia, voltava, seduzia de novo, sumia depois, reaparecia? Até que, um dia, assumiu o cargo de juiz/delegado de Paracatu o saudoso Cantídio Freitas Mundim, o ?Seo? Tidas Ourives. O sedutor contumaz, dias depois, confiante na impunidade, logo faturou mais uma. Conduzidos, agressor e vítima, à Delegacia, ele, todo confiante, fingiu mais uma vez: ?Concordo com o casamento, ?Seu? Tidas. Mas estou desprevenido e preciso de um tempo, de um prazo para arrumar as coisas?. Espertíssimo e conhecedor dos antecedentes, ?Seu? Tidas aquiesceu: ?Perfeitamente. De que prazo você precisa?? Já pensando na nova fuga, Antônio Xico disse: ?Preciso de dois meses?.
?Seo? Tidas, no papel de juiz e delegado, concordou com o pedido e sentenciou: ?Está concedido o prazo?. E, virando-se para o policial de plantão, ordenou: ?Soldado Fulano de Tal, prenda esse rapaz, tranque a grade muito bem trancada e só solte o preso daqui a dois meses para que ele possa se casar?. E foi assim que, por ter entrado para o rol dos casados, nunca mais ouviu-se falar de Antônio Xico como sedutor e incorrigível deflorador de donzelas?