"Causos" de Paracatu IV - Por Florival Ferreira

Paracatu 2010 022

O incrível  ?causo? do Cabo Ótico

         O poeta, compositor e músico  Adaílton Silva, o Didi do Cartório, diplomado em violão clássico e membro da Academia de Letras do Noroeste de Minas, tem uma versão diferente. Mas não falta  quem afirme, confirme,  passe documento em cartório (inclusive no dele) e dê fé que o caso (ou ?causo??)  ocorreu mesmo foi com um  aposentado da Polícia Militar de Minas Gerais, à época do ?teje preso?, quando ele ainda    estava  na ativa como cabo lotado em Paracatu e era, conhecido ? vamos chamá-lo assim ? como Cabo Graúna.

          Graúna, alto e forte,  era tido como um militar de linha dura, que não dava ?colher de chá para vagabundo?.  Se o engraçadinho saísse dos eixos,  era ?gentilmente? convidado a comparecer ao tosco quartel ou  à Delegacia de Polícia no mesmo instante, onde, debaixo de apavorantes  ameaças, seria colocado numa cela junto com um suposto índio que tinha uma péssima   fama.  Acabava amaciando e  confessando ?espontaneamente? os seus delitos antes mesmo da chegada à repartição policial. Depois de solto, desaparecia ou nunca mais aprontava porque sabia que Graúna estava de olho. Consta que a reincidência em delitos, naqueles idos,  era mínima, pois vigorava então  um ditado que rezava:  ?cachorro mordido por cobra tem medo até de linguiça?.

          Apesar de durão,   Graúna era sentimental e religioso. Um certo dia, precisando ir a João Pinheiro, convidou outro cabo para acompanhá-lo. Colocaram algumas crianças na parte trazeira do carro e botaram o pé na estrada, relembrando, entre risadas,  casos de malandros que botaram para correr no cotidiano policial. Chegando à cidade de destino pela BR-040, existiam, como existem até hoje, placas na beira da rodovia, alertando os motoristas quanto aos cabos utilizados em telecomunicações enterrados à margem da via.  Estacaram de repente quando leram  dizeres de uma delas: ?CUIDADO ? CABO ÓTICO ENTERRADO?.

          Os dois bravos e briosos soldados,  acostumados aos desafios, ao  perigo e aos mais variados riscos,  pararam o carro na beira da estrada. Quem os visse em prantos, jamais acreditaria serem aqueles os dois destemidos militares de Paracatu. Ainda com os olhos rasos d?água, aproximaram-se do local em que estava a placa indicativa. Bateram demorada continência. Em seguida, ajoelhados, passaram outro longo tempo rezando pela alma do Cabo Ótico, coitado, pedindo a Deus  o seu merecido descanso eterno e proteção divina para a família enlutada! O sol começava a ficar mais quente e as crianças começaram a fazer barulho no carro. Os dois corajosos cabos, então, exageradamente compenetrados, ?raiaram? com elas:

  • Crianças,  façam silêncio! Mais respeito! Aqui é o túmulo de um companheiro que tombou?