?Causos? de Paracatu ? por Florival Ferreira

Paracatu 2010 022

 ?Causo? de política: Dr. Romero e o comício dos ?buritizanos?

O Doutor Romero Mariano, exímio cirurgião, profissional sem mácula, cidadão exemplar e caridoso,  irmão do saudoso poeta Rubens Mariano, foi, durante décadas, o  anjo da guarda da população. ?Abaixo de Deus, é o Dr. Romero e pronto!?; ?na faca (bisturi) não tem outro igual!? ? diziam as pessoas, confiantes e orgulhosas por terem um doutor tão competente naquela cidadezinha então  risonha e feliz.  Se algum doente, ainda que com o pé na cova, era submetido aos seus cuidados, na bolsa informal de apostas logo começavam os prognósticos, com o Dr. Romero vencendo a porfia e espancando espetacularmente a morte na preferência dos apostadores.

Tamanhos conceito e  carisma, claro, não passariam despercebidos diante dos olhos dos líderes  políticos, sempre à espreita de nomes que, por suas qualidades pessoais, morais  e profissionais, poderiam  merecer o apoio popular e levar seus partidos  ao poder na próxima corrida à Prefeitura. E foi assim que, de repente, e não mais que de repente, como diria Vinícius e juram testemunhas da época, o Dr. Romero, ainda no verdor da mocidade, se viu lançado candidato a prefeito de Paracatu. Alcançar a vitória, na visão dos estrategistas políticos da ocasião, era só uma questão de tempo. Contudo, era recomendável que fossem feitos tantos comícios quanto necessários para não melindrar o povo e transmitir ao eleitorado a sempre perigosa impressão de soberba e de salto alto.

Dizem as más línguas que, dentro desse contexto, além de outros, foi programado um grande comício na localidade de Buriti, hoje pertencente ao município de Guarda Mór, em que pese o fato de  os moradores do lugarejo, à época, terem a fama de brigões. Além disso, sem instrução naqueles distantes anos, eram eles conhecidos também pelo uso incorreto e por vezes engraçado da língua. Importante, portanto, que ninguém da comitiva risse quando falassem de forma contrária às regras gramaticais.  A agressão ao vernáculo poderia ser imediatamente transformada em agressão propriamente dita à vida, uma vez que a utilização de facas, punhais, facões, peixeiras e garruchas normalmente complementava a indumentária daquela gente.

Comício realizado,  constatou-se, com relativo alívio, o prioritário apoio daquele povo ao candidato visitante. Decidiu-se, assim, a pedido do eleitorado local, comemorar a vitória iminente de forma festiva. E, de imediato, começou um forró num salão improvisado, enquanto a cachaça corria a rodo. Apesar do clima alegre, a comitiva visitante estava temerosa, ainda amedrontada em razão da fama de briguentos dos homens do lugar e dos erros linguísticos que poderiam causar um desavisado e trágico sorriso a qualquer hora.

Ainda segundo as más línguas, em determinado momento do pagode, com aqueles tabaréus já ?altos?, um grupo irrompeu o salão do forró gritando: *?Vamo alejá o home! Vamo alejá o home! Vamo alejá o home?. *O Dr. Romero nega, e é até natural que o faça, mas há quem garanta que, brancos de pavor, o candidato e a sua comitiva deram no pé, diante da decepção dos eleitores aborígenes que, sentindo-se abandonados, resolveram passar para o outro lado. As eleições chegaram e o candidato perdeu a eleição por estreita margem de votos: exatamente o número de sufrágios que deixou de ter ali e que migrou para a candidatura adversária.

Só muito tempo depois é que o Dr. Romero ficaria sabendo que, quando disseram ?Vamo alejá o home?, aqueles caipiras rudes queriam dizer é ?Vamos eleger o homem??