"Causos" mineiros de Paracatu V - Por Florival Ferreira

casa<em>de</em>cultura<em>de</em>paracatu<em>out</em>2010O trágico ?causo? do desconsolado marido que defecou nos pés de rosa

O ?causo? de hoje é importado de Varzelândia, Norte de* Minas, e só conto porque aconteceu no então distrito de Ibiracatu, nome de origem indígena que significa ?gameleira? ? árvore que abundava por lá ? e é muito parecido com *Paracatu. Corria o ano de 1982. Apesar do entulho autoritário e jurídico deixado pelo regime militar que agonizava, já existia relativo alívio libertário no horizonte do Brasil, clima que marcava as eleições daquele ano.

Dentre outros, era candidato a prefeito daquele município o fazendeiro Vicente Pereira, do PMDB, parente do hoje deputado mineiro bom de urna Gil Pereira, que tem na região de Montes Claros sua principal base eleitoral. Os tempos eram outros, mas antigas práticas políticas ainda estavam vivas. Dentre elas, promover comícios que eram verdadeiras festas populares, com farta distribuição de farofa e café (para as mulheres), ?Cortezano? e pinga (para os homens), seguida de um pagode que só tinha fim quando o sol começava a clarear no horizonte.

Vicente Pereira e seu QG, o auge da campanha, foram fazer um comício em Ibiracatu. Lá chegaram debaixo de um foguetório sem fim. Após os discursos de praxe, passou-se à colossal distribuição de comes e bebes e ao forró. Aconteceu que, no momento em que era preparada a indispensável e inolvidável farofa, um vidro de veneno para ratos, sem que ninguém visse, caiu acidentalmente (ou teria sido entornado sorrateiramente por espiões adversários?) no imenso tacho metálico. Homens, mulheres e crianças que saborearam avidamente  o prato, por isso, foram acometidos por dores abdominais violentas, vômitos e diarréia, sem qualquer explicação plausível. Deu até DOPS, uma das polícias também políticas da ditadura, na história.

Caminhões, caçambas, ?jardineiras?, carros pequenos e até carroças foram utilizados para condução das vítimas ao pequeno hospital público de Varzelândia, o mais próximo, que logo ficou lotado. Como as pessoas contaminadas não paravam de chegar e não havia mais disponibilidade de leitos, passaram a ser instaladas em macas nos corredores, depois em bancos da recepção, nos passeios do hospital, nas calçadas da vizinhança ? locais transformados num inferno dantesco e fedorento.

O candidato Vicente Pereira tinha a seu serviço um motorista pernambucano, pau pra toda obra, que percorria todo o município pilotando a caminhonete do patrão. Naquele fatídico dia, fora uma das vítimas da farofa contaminada. A diarréia por ele sofrida passou de brutal. E foi ele, todo sem jeito, triste e pálido, olhos fundos de fazer dó, lamentando o infortúnio com o sotaque característico, o escolhido para narrar o acontecido ao chefe.

  • O* sinhô* há de crer, seu Vicente, que eu mesmo num guentei segurar as tripas. Borrei sua caminhonete todinha. Nem guentei *chegar em casa: também caguei nos pés de Rosa *tudin, tudin?

O candidato, que já era compreensivo fora dos períodos eleitorais, procurou consolar o empregado:

  • Tem problema não, Severino. Fazer isso nos pés de rosa até que é bom: serve de adubo ? confortou.

  • O sinhô numintendeu, seu Vicente. Rosa é minha muié?