Cervejas para a Ceia de Natal

O homem produz cerveja há milhares de anos, temos notícias de que tudo poderia ter surgido na Mesopotâmia em 9.000 a.C. Especula-se que nossos ancestrais tenham deixado a vida nômade para o cultivo de cereais, especialmente a cevada, que garantissem sua subsistência e, existem até teorias que rezam que o homem tenha se fixado à terra para produzir cervejas, uma cerveja primitiva que no início surgiu ao acaso.

Teorias a parte, o fato é que a cerveja passou a ser peça integrante da nutrição da população, inclusive como poção curativa para diversas doenças, como no Egito ou como uma bebida segura na Idade Média, já que a água era muito contaminada devido à concentração populacional e aos feudos ainda não terem infra-estrutura sanitária.

A contaminação pela água causava diversas doenças em função do exacerbado índice de coliformes fecais. A cerveja, por sua vez, era segura, devido a forma que é produzida, onde a água é fervida junto com o malte, e porque o álcool é subproduto natural da cerveja. A mesma tornou-se assim uma bebida que era consumida por toda a família, inclusive pelas crianças, e onde as mulheres tinham um papel fundamental, o de produzir a cerveja consumida por todos.

Mais adiante, ainda no período medieval, a Igreja passou a produzir cervejas, não apenas para consumo próprio, mas também para comercialização. Ao longo do tempo, por questões sócio-políticas-culturais, apenas os monastérios passaram a produzir, para consumo próprio e comercialização. Detentores de conhecimento, dos melhores ingredientes, e com capacidade para aprimorar as cervejas, os monastérios passaram a produzir verdadeiros néctares que eram consumidos internamente em todas as ocasiões por todos os monges, e pouco a pouco novas receitas de cervejas foram surgindo.

A igreja sempre teve hierarquia rígida e obviamente as melhores cervejas eram bebidas pelos que ocupavam posições hierárquicas mais elevadas. Assim, reza a história que foram se criando cervejas mais encorpadas, mais saborosas e mais alcoólicas, o que deu origem a alguns estilos de cerveja que conhecemos hoje, e que eram denominadas nas caves de cerveja com marcas de ?X?. As mais simples são as Blond Ales, seguidas das Dubbel, das Tripel, das Quadrupel e outras que foram desenvolvidas para datas comemorativas relacionadas a Igreja.

Interessante saber que no período da Quaresma, onde a alimentação se restringia a líquidos, cervejas muito encorpadas eram produzidas e consumidas pelos monges como ?alimento líquido?, sendo estas as mais alcoólicas devido a alta concentração de maltes (açúcares fermentáveis), algumas chegando a teores alcoólicos de 10 ou 12%, e só Deus sabe das consequências? os católicos fervorosos que me perdoem pela brincadeira!

O fato é que uma das datas comemorativas católicas mais importantes é o Natal, e os monastérios produziam cervejas especialíssimas para esta comemoração, voltadas na maior parte das vezes ao alto clero. A tradição continua, e hoje temos disponíveis no Brasil alguns excelentes rótulos desenvolvidos para o Natal.

Uma das minhas cervejas preferidas é a cerveja austríaca Samichlaus, com teor alcoólico de 14%, produzida todos os anos apenas no dia 06 de dezembro, dia de Santa Claus (Papai Noel), que é envelhecida por 10 meses após engarrafamento antes de ser distribuída. Seu prazo de validade é indeterminado e ela evolui em sabores e aromas com o passar do tempo, tornando-se ainda mais agradável. Boa ideia é comprar uma cerveja de Natal e guardá-la para o ano seguinte.

Gostaria de ressaltar que as cervejas de Natal tradicionais são desenvolvidas no hemisfério Norte, onde é inverno esta época do ano. Então prepare-se para teores alcoólicos elevados, potência de sabor e corpo, sendo que a  grande maioria é de maltes escuros (tostados). Abaixo relaciono alguns exemplares disponíveis no Brasil e alguns excelentes rótulos brasileiros, inclusive o da Cervejaria Bamberg, que desenvolveu a Bamberg Weihnachts,  especial para o nosso clima. A descrição abaixo é do próprio Alexandre Bazzo, proprietário e Mestre Cervejeiro da Bamberg:

- Visual: de coloração vermelha com leve toque amarronzado, cristalina, com boa formação de espuma e boa consistência;

- Aroma: frutas vermelhas, cítricas, terroso, leve caramelo e bem sutil defumado;

- Sabor: no começo percebemos a doçura dos maltes e o frutado do fermento, mas rapidamente essa sensação é sobreposta pela rusticidade do malte de centeio, certa acidez, terminando levemente amarga e o defumado aparece sutilmente no final;

- Sensação na boca: esta cerveja tem corpo médio, porém a acidez e o final seco a deixam refrescante. O centeio provoca sensação de ?oleosidade?, criando uma viscosidade na boca;

- Impressão geral: uma cerveja complexa, porém refrescante e fácil de ser bebida;

- Temperatura ideal de consumo: de 4,0°C a 8,0°C.

- Harmoniza com: Ceia de Natal, tender, leitoa assada, churrasco, família reunida e confraternização.

Agora, minhas outras sugestões para o Natal, acompanhadas das informações de nacionalidade e volume de álcool:

- Feuillien Cuvée Noél: belga com 9 % abv

*- Delirium Christmas: *belga com 10 % abv.

*- Gouden Carolus Christmas 2003: *belga com 10,5 % abv.

- St. Bernardus Christmas: belga com 10% abv.

*- Eisenbahn Weihnachts Ale: *brasileira com 6,3% abv.

- Baden Baden Christmas Beer: brasileira com 5,5% abv.

Um Feliz Natal!

Cheers!!!