Cinema e vinho

O SONHO CALIFORNIANO
 
Andando pelas trilhas dos meus DVDs encontrei uma trilogia que muito me agrada, e pela enésima vez assisti ao filme “O Poderoso Chefão” – 1972/Francis Ford Coppola. Após algumas horas de filme resolvi entrar na Internet à busca de um pouco mais de informação sobre a vida de Vito Corleone, que apesar de fictício dizem por que desperta avassaladoras paixões, o que já não posso confirmar… Enfim, em minha busca sobre o Il Padrino descobri coisas do além-mar e uma delas é que o seu finíssimo diretor, não no sentido físico, mas mental, – o que, convenhamos é o que realmente importa – além de um gênio do mundo cinematográfico é também um viniviticultor de primeira.
Umas das curiosidades de Francis Ford Coppola é que com o faturamento dos primeiros dois filmes da trilogia de “O Poderoso Chefão” ele comprou uma histórica propriedade na Região do Vale Central do Rio Napa, chamada de Rubicon Estate, aonde além de produzir vinhos poderosos (tanto pela qualidade quanto pelos preços elevados), conseguiu através destes sua independência na sétima arte, o que lhe conferiu autonomia para produzir seus filmes sem a ditadura dos patrocinadores. Além do acesso a vinhos de qualidade no Rubicon Estate, a propriedade se tornou um dos pontos turísticos mais badalados no estado da Califórnia, onde você pode conferir carros, cenários, roupas e tantos outros artigos presentes nas produções do renomado Coppola sendo um dos mais visitados e admirados objetos a escrivaninha de Vito Corleone.
A partir dessa premissa, farei um paralelo entre o cinema e os vinhos. Não é de hoje que sabemos que a indústria cinematográfica de Hollywood, hoje situada na inebriante Los Angeles, passou por alguns apuros no começo do século XX motivadas pelo fracasso de suas sedes, que situadas em Nova York e Chicago sofriam com invernos rigorosos e com a escassa presença de luz natural, o que para o cinema é inaceitável. A mudança de local se deu com a junção do desespero dos cineastas e a aposta dos Dirigentes da Câmara de Los Angeles, onde investiam em uma campanha de 350 dias de sol para atrair o cinema. Isto foi como um xeque-mate, onde já em 1920 a cinematografia hollywoodiana se encontrava a pleno vapor. Em quase paralelo ao final da Lei Seca em meados de 1933, a indústria vinícola teve outro impulso. Este em decorrência da busca pelo tempo perdido, dotada de um terroir no mínimo interessante, resumidos em três zonas: as que sofrem influência do Pacífico; o vale central (Central Valley) e a terceira e não menos importante, a leste, imensa e de clima muito quente, Sierra Nevada. Próximo aos Vales no centro do estado o clima se assemelha, muito, ao do mediterrâneo o que propiciou a produçao de vinhos com qualidade de alta qualidade e de grande credibilidadee em todo o mundo. A degustação às cegas que ocorreu em 1976 só veio a confirmar tal supremacia de terroir, liderada pelo famoso negociador Steven Spurrier, que consagrou mundialmente o vinho californiano ao fazer com que o Stags’ Leap 1973 do Napa Valley se sagrasse vitorioso em confronto com um dos mais renomados vinhos do mundo o Château Mouton Rothschild de 1970, isso em se tratando de tintos. Não menos infelizes foram os vinhos brancos franceses em contraponto com o hoje renomado Château Montelena 1973, que de restante foi de igual para igual.
Com todo esse conteúdo não seria nada menos que obrigatório afirmar que a produção acelerada e hiper qualificada da Califórnia tornou seus vinhos os mais excepcionais do Novo Mundo. Complexos, ricos em aromas e cores e de qualidade inconfundível, estes são os vinhos californianos que como os clássicos de Coppola arrastam amantes e criam fiéis seguidores.
Bruna Held é estudante da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo, filiada a Association de la Sommelliere Internationale – ASI. Nascida em Porto Velho, apaixonada por Artes Plásticas, Arquitetura e Enófilapor natureza.
Contato: [brunaheld@gmail.com]()