Como destruir uma banda por burrice emocional

Da mesma forma que jogadores de futebol aqui no Brasil são logo comparados, quando surgem em meio a grande sucesso, a Pelé, na Inglaterra, a referência, para jovens bandas, são os Beatles. Cruel, não?
Para a sorte dos Smiths, na mesma época em que eles surgiram, o Duran Duran já sofria com a comparação –indevida, diga-se de passagem. Então, para Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce, sobrou brigar contra os próprios fantasmas. Grana, divergências de temperamento e...sempre elas. As drogas.
Não era nascido quando os Beatles acabaram, mas vivi o auge dos Smiths. Por isso, ficou muito mais difícil entender, à época, os motivos que fizeram com que uma banda no auge de seu processo criativo, sucesso e produtividade terminasse, da noite para o dia. Foram apenas quatro álbuns e 74 músicas gravadas, o suficiente para colocá-los no topo dos anos 1980. Os sentimentos de fãs se misturaram a uma série de informações desencontradas; o fato de a banda ter dois atores principais, Morrissey e Marr, que pouco se pronunciaram, nada ajudou. Com o passar dos anos, ficou tudo mais claro. Sobretudo após o lançamento de A Light That Never Goes Out, biografia irrepreensivelmente escrita por Tony Fletcher em abrangentes 630 páginas.

Embora as drogas tenham complicado a relação entre os integrantes, com a natural intolerância aos excessos que comprometiam a produtividade, e a discrepância econômica (Marr e Morrissey, compositores, ficavam com 40% dos ganhos cada, os demais, meros 10%), o principal elemento desagregador foi a personalidade instável e pouco sociável de seu vocalista, e compositor, Steven Patrick Morrissey. Muitas vezes contemporizada por Marr, guitarrista de estilo incomum e compositor das melodias que casavam perfeitamente com as letras poéticas e ácidas de Morrissey, a persona introspectiva e de difícil adaptação ao sistema que rege a promoção de uma banda que queira atingir as massas (turnês intermináveis e gravações de vídeos são componentes inevitáveis), aliada à opção equivocada de não ter um empresário cuidando das questões práticas e sendo o responsável por manter a liga, coisa que Brian Epstein realizou nos Beatles com extrema competência foram ingredientes básicos para a dissolução. Fletcher narra como a recusa de Morrissey a atender seu parceiro e abrir a porta de sua casa foi o ponto final de uma banda que durou apenas 5 anos, com resultados impressionantes. Apenas para termos de comparação, os Beatles tiveram 13 anos para chegarem ao ponto final. Os Stones já passaram dos 50 faz tempo.
Inteligência emocional conta muito mais que a capacidade intelectual e música na hora de manter uma parceria de sucesso.