Compositor, um Anônimo Famoso

Compositor

Temos neste momento uma superpopulação de cantoras.

Sem pensar muito, posso enumerar dezenas delas, sem incluir os medalhões da decantada MPB, como Gal Costa, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Simone, Maria Bethânia, Beth Carvalho, Zizi Possi, entre tantas.

Além do talento incontestável que o Brasil reúne nesta área, um fenômeno proporcionado pela aparição de João Gilberto, com o advento da bossa nova, ajuda a explicar o motivo de termos tanta quantidade e qualidade. Com uma voz pequena, considerando os padrões vigentes à época, João ajudou a quebrar a timidez que compositores tinham de cantar seus trabalhos. Ajuda a explicar, mas não esgota o assunto, pois, se temos cantoras a granel, o mesmo não acontece com os homens.

De qualquer forma, não basta mais compor. Autores que recebem uma ninharia de direitos autorais, perto dos valores que intérpretes conseguem abocanhar com shows, publicidade, e ainda a venda dos fonogramas, dificilmente se sentiriam incentivados a permanecer na condição coadjuvante de quem só aparece na ficha técnica. Sem contar a vaidade de ver sua imagem reproduzida na mídia, que é um fator subjetivo e de difícil aferição, mas bastante considerável em um mundo dominado pela superexposição midiática que se esparrama por redes sociais.

Contudo, os tais quinze minutos de fama foram pulverizados. Hoje se produz fama diante do computador, e ele está em todos os lugares. O problema fica mais evidente quando constatamos haver compositores sem o menor tino para cantar suas canções. Quando há recursos financeiros na produção, o aparato tecnológico resolve quase tudo. Mas para os que começam, ainda sem tantos recursos, uma boa letra e uma melodia interessante, mesmo bem produzidos com um bom instrumental podem ser triturados pela desafinação, pelo estilo equivocado ou mesmo pela voz insuficiente.

E resta esperar que alguém competente se dê conta disso para alertar o compositor a se manter longe dos microfones e encaminhar a alguém que faça a música fluir. Um consultor, que nem sempre está disponível. Um produtor, que via de regra não trabalha de graça. Ou um ouvinte, que nem sempre está disposto a falar a verdade para alguém que pode se magoar com tamanha sinceridade. Sei que é difícil tomar a decisão, mas não seria melhor procurar um cantor e atuar na composição? Em virtude disso, procuro sempre que possível creditar os autores das canções. Eles merecem o crédito pela obra de arte e, muitas vezes, pela sabedoria e humildade de manterem-se anônimos.