De casaca e chapéu jaca

?Bom dia pinguim, onde vais assim, com ar apressado??. Era chegar julho e a música de Toquinho virava a trilha sonora do Zoológico de Niterói. A canção composta para o disco infantil Arca de Noé (por que não se faz nada parecido nos dias de hoje?) tocava, tocava e tocava, até outubro. Pelo menos, era o que vinha na minha cabeça cada vez que entrava um deles. ?Quando você caminha, parece o Chacrinha, Lelé da caixola??.

Pois é, macacada! Era aí que eu parava de cantarolar a música. Nenhum deles chegava caminhando. Da Patagônia até aqui são, no barato, cinco mil quilômetros. Nesta dura viagem, passam dias sem se alimentar e perdem as penas que servem de isolamento térmico. Os que sobrevivem, chegam à nossa costa altamente debilitados, com quadro de hipotermia (temperatura corporal baixa) e hipoglicemia (baixa taxa de glicose no sangue).

São todos jovens, trazidos por fortes correntes marinhas vindas da Argentina, muito em função do aquecimento global. É o período em que os mais novos estão saindo do ninho, e com a falta de experiência e a escassez de alimentos provocada pela pesca predatória na região, os pequenos pinguins se afastam do litoral e caem nesta cruel armadilha humana.

Só que isto, como sabemos, não basta para os evoluídos *homo sapiens! *Cerca de 80% dos pinguins que sobrevivem chegam banhados de óleo (adivinha por quê?) ou machucados. Entre os motivos, ferimentos na cavidade oral provocados por espinhas de bagre, indícios da pesca predatória em nossa costa, que elimina os peixes comuns a cadeia alimentar dos pinguins, como sardinhas e corvinas.

A boa notícia é que em 2013 os jovens pinguins que se perderem poderão ser tratados dentro do programa de reabilitação de animais da Fundação Zoonit, que já concluiu a reforma de suas instalações voltadas ao tratamento visando a devolução dos animais à natureza. Foram cerca de dois mil pinguins tratados e devolvidos ao seu habitat natural até hoje, um trabalho que costuma durar um mês, na base de antibióticos e outros medicamentos, alimentação leve à base de pasta de peixe, e muito carinho!

Exemplo de dedicação reconhecido internacionalmente e que trouxe certa vez a Niterói o americano Esteves Vogel, biólogo do maior aquário do mundo, o Monterey Bay Aquarium, da Califórnia, que contabiliza mais de 3.500 espécies de plantas e animais, incluindo o temido Tubarão Branco. Vogel foi fisgado pelo trabalho desenvolvido pelo Zoonit, com o qual se disse ?impressionado?, tanto quanto ?chocado? com mais este efeito do aquecimento global.

Bom, a volta é bem mais tranquila que a ida. Geralmente, são levados de volta ao litoral sul por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), mas em algumas ocasiões em que este transporte não foi possível, os pinguins foram de navios da Marinha, com direito a piscina  (tanques salinizados, com bombeamento de água do mar), e farta refeição, supervisionada por funcionário do zoológico.

Não sei qual música a banda da Marinha tocou na despedida dos pinguins resgatados, mas caía bem ter encerrado da forma que Toquinho cantou: ?Pinguim, meu amigo, não zangue comigo, nem perca a estribeira. Não pergunte por quê, mas todos põem você em cima da geladeira??