"Dia de Finados" por Luiz Fernando Bellini

?Dois de novembro, uma chuva pesada e fria que se mistura com o calor. Não importa o que dizem as previsões, sempre chove no Dia de Finados. Quando eu era garotinho, minha mãe dizia que era o choro de quem já partiu. O choro da saudade em forma de chuva, que ajuda a disfarçar aquele que cai de nossos olhos.

Desci já perto do cemitério, um dos maiores aqui da Zona Leste e como tal, bem humilde e já um pouco sujo. Uma fila imensa de pessoas entrando e saindo de lá. Chegam com flores, saem com lágrimas. Eu ando de cabeça baixa, escondendo meus olhos na aba do boné pra ninguém me ver. Ninguém me conhece aqui e eu também não quero, vim só por você.

Caminho até a sala e procuro seu nome, achando assim seu túmulo. Mais alguns minutos caminhando e penso em voltar. Já estou fraco, amor, já estou bem ruim e ver pessoas sofrendo pelo o que já não têm mais me deixa destruído. Mas não faz mal, cheguei ao seu túmulo. Amor, o que aconteceu, está tão mal cuidado. Seu nome abreviado, pintado com uma tinta branca que com certeza irá sumir. Por que, amor?
Eu não agüento, me ponho a chorar feito uma criança que apanha do primo mais velho, mas cadê a tia para reclamar.

?Você me deixou, amor. Me deixou e eu deixei que isto acontecesse. Você sabe que eu não tive culpa, não é? Minha mulher foi embora, pediu divórcio. Descobriu sobre nós dois. Me chamou de verme, de nojento, de tudo o que você possa imaginar. Perdi meu emprego e minha família diz por aí que não existo mais. Acho que eles têm razão. Olha pra mim, amor, não sou mais um homem. Não sou mais nada que realmente valha. Minhas pernas não conseguem mais caminhar. O que me sustenta é essa paixão que ainda sinto. Você me amou e eu reneguei. Eu fugi, não quis entender. Não quis acreditar que você era meu. Olha pra mim, amor, vou morrer. Vou embora, mas vou pra você. Vamos dançar um bolero, não importando se é com Deus ou com o Diabo, só quero seu lado. ?

Volto lentamente, coração pulsa mais devagar, as veias apertam, a escuridão cobre os olhos, me seguro por dentro, finco meus pés no chão, espero até que passe. Podem me levar anjos e demônios. Podem me matar, mas façam isso quando eu estiver em casa. Levem enquanto eu finjo estar vivo no sofá. Mas façam rápido, um homem me espera.?

Este é um texto Luiz Fernando Bellini para o Projeto ?Sapato Branco?, encabeçado por ele mesmo junto a seu amigo Felipe Mascanheras.

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?Sapato Branco. O auge e o sucesso. A fama e o poder.
Estamos nos anos 90. Uma década morta e obscura, recheada de drogas, armas, rancor, preconceito e desilusão.?