Egito: dádiva do Nilo

A água, essencial à vida, nos primórdios dos tempos era venerada como uma divindade entre os povos. A disputa pelo controle e extração das reservas de água doce era ? e continua sendo ? um gatilho comum para despertar confrontos bélicos entre os povos, principalmente nos locais de escassez, como nas regiões desérticas do Oriente Médio, da África e da Ásia. Muitos dos caminhos que conduzem à paz passam, invariavelmente, pelos traçados da hidrografia mundial.

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O Egito é um caso especial de milagre hidrográfico. Na célebre frase do historiador grego Heródoto (485?420 a.C.), o Egito é ?uma dádiva do Nilo?; como um verdadeiro oásis, floresceu na região desértica africana sob o ritmo do fluxo de água do Nilo.

É inegável que apenas a questão geográfica não explica por completo o desenvolvimento da civilização egípcia e todo o seu legado cultural. A força de trabalho, o esforço e a criatividade dos egípcios no aproveitamento da água também desempenharam um papel fundamental. No entanto, colocar o rio Nilo no centro da História do Egito é válido para compreender melhor os hábitos, as crenças e as atividades econômicas do povo egípcio na Antiguidade.

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O primeiro passo é conhecer algumas características peculiares desse rio. O Nilo é o rio mais extenso do mundo: compreende cerca de 6830 km, desde a nascente no coração da África até a foz, em forma de delta, no mar Mediterrâneo. O rio Nilo, na realidade, é composto de duas porções designadas Nilo branco e Nilo azul. O Nilo branco origina-se do lago Vitória na região central da África; o azul, das montanhas no planalto da Etiópia. As duas porções reúnem-se à altura da capital do Sudão, pais ao sul do Egito. O Nilo, portanto, corta o território africano no sentido sul-norte.

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A região próxima ao delta é a que possui maior registro de cheias anuais entre todos os rios existentes no mundo. A precipitação sazonal na África central durante o verão carreia a matéria orgânica (húmus) das florestas do planalto da Etiópia para as nascentes do Nilo. Em direção à jusante (da nascente para a foz), o efeito das precipitações tropicais é intensificado; a fonte de húmus atinge, então, a foz do rio e é acompanhada por um pico de inundação. Como resultado, os detritos orgânicos chegam às margens desérticas do Nilo, fertilizando-as.

Na Antiguidade, a inundação do Nilo era considerada um fenômeno divino para nutrir as terras do Egito. A cada ano, no mês de junho, o nível da água do Nilo descia ao mínimo, e o deserto avançava sobre o vale. A apreensão entre os egípcios era geral. Entretanto, a partir do mês de julho, com euforia, eles acompanhavam a elevação no nível d?água e reverenciavam jubilosos a tão esperada inundação dos vales que, segundo eles, era atribuída às lagrimas da deusa Isis. Ainda que, por vezes, as inundações mais violentas provocassem a destruição de moradias e a morte de homens e animais, elas eram sempre vistas como uma bênção.

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A interferência do rio Nilo na vida dos egípcios era tamanha que o calendário era ritmado pelo ciclo do rio: eles mediam o tempo de um ano em apenas três estações ? e não em
quatro, como os hebreus e os gregos. O ano começava com a cheia do Nilo, no mês de julho. Era também o início da primeira estação do ano, a inundação, que durava até novembro quando o Nilo começava a retornar ao seu leito. Logo que as águas retrocediam, os egípcios começavam a semear com sementes de trigo e cevada o solo fértil e, depois, seguiam apenas irrigando o campo por quatro meses, ou seja, até março. Este período marcava a segunda estação do ano: o ressurgimento da terra. Por fim, despontava a terceira e última estação que durava de março a julho e marcava época das colheitas.

O esforço dos egípcios na tentativa de aproveitar ao máximo o uso da água foi, sem dúvida, fundamental para a criação de uma das civilizações mais antigas da História. Entretanto, sem o Nilo, o Egito não seria mais do que uma terra pobre e seca. Os egípcios sabiam que, ali, somente nos caminhos percorridos pelas águas do Nilo, a vida teria condição de florescer. Por isso, eles o reverenciavam como uma divindade, uma verdadeira fonte milagrosa de sua existência.

Gabriela Paola Ribeiro Banon