Fotografia na Veia!

Minha entrada no fotojornalismo foi movida pela mesma paixão de qualquer jovem, em qualquer parte do planeta: mudar o mundo, mesmo que o nosso mundo seja o lugar em que pisamos. Esse mundo que não perdeu a magia, nem a energia criadora. Fotografar, requer técnica e emoção; sem uma não se faz a outra. Buscar o exato momento de uma boa foto é uma ciência ainda obscura para todos nós. Saber o exato momento de ?apertar o botão? está na cultura pessoal e social de cada indivíduo, sendo ele profissional ou ?fotógrafo digital domingueiro?, categoria essa das mais atuais no mundo fotográfico.

Fotojornalismo é uma ?cachaça? que nos move no dia-a-dia, e que nos leva a sermos mais corajosos em certas ocasiões do que normalmente seríamos.

A adrenalina do inusitado, do improvável e imponderado, a foto que só existe na cabeça do editor de fotografia, e quando nos deparamos com o fato, tudo pode e deve mudar. Nada é como pensamos ao sairmos da redação, tudo se transforma, e você é testemunha ocular dessas mudanças. Ela passa diante dos seus olhos, em décimos de segundos, mas você tem que captá-la, tem essa obrigação profissional, tem essa obrigação social ou mesmo uma obrigação com sua própria história.

Estamos em lugares que o ?ser comum? não frequenta sempre, conhecemos pessoas das mais variadas posições sociais, conversamos com presidentes e com moradores de rua, nos metemos em tiroteios e entrevistamos Dalai Lama, vivemos o drama do próximo como se fosse o nosso, voamos como pássaros em aviões, balões, asa-deltas e tudo mais que nos colocar no alto para fazermos ?a foto?.

Em um desses voos que me meti é que quase passei dessa para melhor, e não foi a única vez, mas pelo inusitado foi a mais marcante. Essa foto pode até dizer pouco sobre o fato, mas é essa foto que seria minha última imagem neste planeta.

O fato é que estava por 15 dias na Amazônia, fazendo uma longa matéria sobre o Sivam (Sistema de Vigilância da AM). Na primeira semana tivemos que ficar em uma determinada cidade, e a equipe da FAB iria buscar a três horas de avião dali um índio que estava à beira da morte. Claro que eu tinha a opção de ficar naquela cidade em que já me encontrava e esperar o retorno da aeronave. Mas por óbvio que quando o comandante me deu a opção de ir com eles no resgate, eu não pensei duas vezes (olha a cachaça aí).

Pois me meti sim no Bandeirante, rumo a uma cidade que só se chegava pelo ar. O tempo estava muito ruim, chovia muito na região, coisa normal na Amazônia, e a tripulação depois de duas horas e quarenta não encontrava visualmente a pista de barro para o pouso. Então o piloto me chama, eu sentando em um local nada confortável, com alguns soldados de carona e dezenas de caixas de frango congelado e sacos de cimentos que foram embarcados aproveitando a ?carona?.

- Nelson, me faz um favor, fotografa aqui o cockpit, acho que vai ser sua última foto, e nosso último vôo, estamos sem combustível, não achamos a pista, tenho mais 10 minutos. Se não acharmos, tentaremos pousar no rio Negro, mas nessa parte ele é muito fundo e com muita correnteza, irá ser na sorte mesmo?

Vocês imaginam a cara de ?ferrou tudo? que fiz. Não tinha muito o que fazer na verdade, era fotografar e fotografar, nesse momento eu sinceramente fiz isso, e em menos de 10 minutos eu gastei dois filmes (isso mesmo galera, filmes fotográficos, pois isso se passa em 1995!).

Fotografei de tudo, dos pilotos no comando aos soldados que nada sabiam do fato. A maioria estava dormindo nos banquinhos de madeira que eram assentos. Enquanto essa adrenalina se esgotava em um ensaio macabro, por sorte a pista foi encontrada e imediatamente o comandante ?jogou? a aeronave na pista, onde mais uma surpresa nos aguardava: um índio atravessou na frente do avião, quase forçando uma derrapagem e consequentemente um acidente nas árvores que balizavam aquela primitiva pista de barro.

Enfim, uma foto simples e uma longa história por trás. O final dela é o índio sendo resgatado e tudo mais dando certo, para sorte de todos nós, e especialmente para mim que estou aqui inaugurando este espaço e dividindo com vocês as alegrias e agruras desta profissão maravilhosa.

Na próxima conto como subi escondido no braço do Cristo e tive fobia para descer. Claro que só eu sabia que lá estava, pois subi sem autorização e sem celular?