Fotógrafo no vestiário

Há três anos no Fluminense já ?passei?, de fato, por três técnicos de futebol, área que trabalho diretamente ligado. O primeiro que tive contato logo que cheguei nesse mundo futebolístico chamava-se Muricy. Sequer me deixava passar na porta do vestiário. No entanto, não o culpo, pois nunca fomos oficialmente apresentados, e é claro que um fotógrafo dentro de um vestiário de futebol era, no mínimo, um intruso. Aquele era um momento tumultuado, pois ele estava prestes a romper feio o contrato com o clube.

O segundo em questão foi o Abel Braga. Profissional com um currículo que dispensa comentários. O mundo do futebol funciona diferente. Os profissionais por vezes julgam antes de conhecer o futuro comandante que os irá conduzir. Isso vai dos jogadores ao staff, e uma marola pode virar um imenso Tsunami. Um cara que por vezes é conhecido por um perfil mais duro corre o risco de ganhar o estigma de ?ditador?. Eu pouco me contaminei com isso e fui logo me apresentando ao Abel, figura que é singular no trato. Eu gosto de pessoas como ele, sinceras sempre. 

- Boa tarde Abel, sou o fotógrafo do Fluminense.

- Boa tarde - respondeu ele, para em seguida virar-se para outra pessoa que estava perto e dar atenção, sem o menor problema por me deixar esperando um mínimo de diálogo.

Somos assim, meio que invisíveis. Temos um trabalho em que, se aparecemos muito, nos misturamos com o fato, coisa que alguns colegas fotógrafos não têm cuidado. Acabam se transformando no que se chama de ?boleiros?, e olha que têm muitos nesse mundo da bola. Se quiser ser fã, que seja, mas desista de ser um fotógrafo com um trabalho respeitado.

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Voltando ao Abelão. Vou tratá-lo assim a partir de agora, do jeito carinhoso que todos usavam para lidar com ele, claro que exceto em uma crise. Foi dura minha conquista para que ele confiasse em mim. O simples fato de me cumprimentar já me dava esperança de ter um dia produtivo de fotografia, coisa que nem sempre acontecia de fato, mas eu tentava, e tentava.

Lembro de um fato logo na sua chegada. Fui abordado por um colega do jornal Estado de São Paulo. Ele me pedia algo inusitado.

- Perez, preciso que me ajude. Me pediram uma foto do Abel tocando piano. Faz parte da matéria que estamos fazendo e tal?

- Peraí, camarada! Você quer que eu peça ao Abelão para sentar no piano?! Tá de sacanagem?!

- Sério Perez, o cara toca piano sim, a matéria vai falar sobre isso!

- Porra, eu vou tentar, mas não prometo nada, cara!

Lá fui eu para o campo com a missão quase suicida, pois eu sabia que não ia ser uma grande proposta para ele. Eu mesmo tinha que fazer uma foto dele mais produzida e por isso tinha que esperar o término do treino. Após isso, faria a malfadada proposta cabeluda.

- Abel, estou com uma demanda de um fotógrafo do Estadão para uma matéria especial!

- Sim, que foto?

- Ele quer fazer você tocando piano? ? fui interrompido.

- Porra, tocando piano é o c?, que m? é essa de foto com piano?!

- Abel, eu nem sabia que você tocava piano, mas a matéria cita isso e? ? mais uma vez interrompido.

- Cara, nem matéria eu dei ainda, não sei de nada disso, que matéria é que não fizeram comigo?

Eu não entendi essa parte, mas por dedução achei que a matéria não tinha sido feita ainda, coisa comum no jornalismo. O editor ?gênio da lâmpada? canta uma pauta na reunião por saber que o Abel dava uns tapas em um piano de cauda, e resolve pautar o fotógrafo antes mesmo da matéria ter sido feita, e muita vezes nem avisa o fotógrafo.

- Pois bem Abel, ainda vão fazer a matéria, topa a foto depois?

- Vamos ver, depois eu resolvo ? respondeu, bem mais calmo.

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Esse é o Abelão, passional ao extremo, mas que respeita, e muito, o profissional que está ligado direto a ele. Várias outras histórias tenho dessa relação de dois anos de trabalho, mas fecho com a da premiação do Campeonato Brasileiro em 2012. 

Estava eu todo enrolado de terno e gravata, traje que só usei em duas ocasiões, no lançamento do jornal Valor Econômico, o qual fui fotógrafo, e no meu casamento. Já tinha começado a cerimônia e eu me alojei na primeira mesa que vi, bem em frente ao palco principal da premiação. Liguei o notebook e tudo mais que nos acompanha. Os colegas que agora me lêem sabem bem a zona que fazemos. Aí, o Sandro Lima, vice de futebol do Fluminense, toca no meu ombro e diz:

- Nelson, você pode sentar em outra mesa?

- Porra Sandrão, fotógrafo é sempre expulso de tudo! Porra, respeita o lugar que escolhi, cara! Preciso estar aqui na frente, sou o fotógrafo do clube!

- Tá legal Nelson, mas, cara, esse lugar é do Dr. Celso (Celso Barros, presidente da Unimed).

Nisso que olho para trás, dou de cara com o próprio, olhando para mim sem entender nada. Eu, é claro, muito sem graça, pois tinha feito a maior grosseria sem necessidade, me levantei e me desculpei com os dois, agarrei tudo que estava na mesa, e me transportei para a mesa vizinha, em que estava o Abelão. Sem pedir licença fui sentando e colocando as tralhas na mesa. Estava todo enrolado e tentando conectar para passar as primeiras imagens da premiação, quando um dos integrantes da mesa me pergunta se eu havia comido. Digo que não por estar enrolado com a transmissão. Nesse momento, o Abelão pega o display do meu note e abaixa, na maior calma (vocês acreditam nisso?)

- Porra cara, você vai ficar trabalhando direto nisso?!

- Abel, preciso transmitir pelo menos o inicio da premiação!

- Transmitir é o c?, você nem comeu ainda, cara! Para com essa porra, come e bebe um pouco e depois você faz isso!!

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Isso resume bem sua personalidade, profissional competente e um cara preocupado com quem está perto sempre. Mas infelizmente no futebol tudo muda, e sempre na velocidade da luz, nos forçando com isso a aprender a conviver com as mudanças.

Viramos a página e tivemos que trocar de técnico. Para mim, que havia conquistado coisas importantes no período, se tornou um pesadelo  esperar um novo técnico. Ainda por cima sendo o Wanderlei Luxemburgo, um mito do futebol nos últimos anos, que conquistou tudo que pôde na profissão. Poucas foram as vitórias que ele não havia alcançado ainda, como a Libertadores. Para mim, seria reconstruir uma relação de trabalho, coisa normal em qualquer lugar, nada demais se não fosse é claro as nuances do ?Planeta Bola?, onde tudo pode mudar a qualquer instante.

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Esperei desarmado, e ousado também. Não mais peço algumas coisas, simplesmente faço e espero o pior. Se não rolar o pior é porque estou fazendo bem o que me proponho. Sou realmente invisível em um ambiente de futebol. Assumi essa postura para tentar fazer o melhor. Sei que quanto menos interferência dentro de um vestiário ou em uma preleção, mais você ganha confiança.

Luxa, como é claro, passei a chamá-lo, não foi diferente do Abel. Minha relação com ele foi uma construção de confiança, diria que bem mais rápida do que com o antecessor, visto que a situação em que ele pegou o time também precisava de agilidade. Aos que estão lendo, lembro que só me refiro à relação do técnico com meu trabalho de fotógrafo oficial do clube. Nunca estaria entrando no mérito da relação com os jogadores, pois isso não me cabe.

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Me apresentei com a mesma parcimônia que tive com Abel, e, como resposta, obtive, novamente, apenas um ?boa tarde?. As coisas, no entanto, vão se acomodando, fui conversando mais com ele e, com um estilo mais solto de conversa, fui conquistando espaço novamente, coisa importante para um fotógrafo de clube. Em um desses ?papos soltos? que tivemos, ele ressaltou a importância do meu trabalho dentro de um clube. Ele de fato acha que todo time de futebol tinha que ter uma equipe fixa de imagem para registrar todos os momentos importantes. Isso é um avanço que não podemos recuar. Logo depois, me pediu para gravar todas as preleções, coisa nova para mim, pois nunca tinha participado de uma experiência ímpar como esta.

Luxa foi tranquilo com meu trabalho, sabendo do meu papel como fotógrafo do clube e a responsabilidade que tenho com as imagens que produzo, nunca me censurando de forma alguma, como Abel também não o fez. Isso porque eu soube fazer meu papel com equilibrio suficiente, e, é claro,  com a ajuda de todos os meus colegas de Fluminense, como massagistas, roupeiros, fisioterapeutas, médicos e o pessoal administrativo, não esquecendo meus dois colegas de assessoria de imprensa que  sempre estão juntos comigo, na alegria e na tristeza.

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Em novembro, trocamos de novo de técnico. Dessa vez, assumiu o Dorival Júnior. Em todas as abordagens que fiz sobre fotos, ele deixou claro que valia meu critério, que era responsabilidade minha. Isso é atitude de um profissional e é essa responsabilidade que nós fotógrafos de clube devemos buscar sempre. Não só direitos de condições mínimas de trabalho, como de direitos autorais que os clubes e empresas jornalísticas teimam em não respeitar.

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Pelo que vejo dessas experiências com os técnicos de futebol, eles estão muito mais antenados para essa nova realidade do que muitos setores dentro de um clube ou em outras empresas que teimam em desrespeitar direitos básicos de um profissional de imagem. Ainda será um longo caminho, mas já demos um passo, mesmo que seja de tartaruga?

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