GAROTA, FLORES... SÃO PRA VOCÊ!

Se existe uma coisa que criança não dá o devido valor é flor! Pra começar aprendemos bem cedo que o cravo brigou com a rosa? Depois, caçamos as dormideiras pelo jardim só para encolher as folhinhas, tem também aquela busca insensata pelo trevo de quatro folhas? Pra piorar desandamos a desfolhar as pobres margaridas para saber se alguém nos quer bem ou não!

Mas isso, só até o primeiro buquê que chega a nossa porta.

Comigo aconteceu ainda aos treze anos. Era dezembro, período de novena de natal para os moradores da Rua João de Andrade Costa. Minha casa ficava apinhada de gente e num desses dias, um burburinho vinha lá da varanda. Entre tantas palavras, ouvi meu nome, logo só se ouvia o meu nome e as vozes cada vez mais exaltadas. Intimada pelos fiéis fui levada até a varanda, quando percebi o ramalhete de rosas estava nos meus braços e todos apontavam para um carro estacionado do outro lado da rua. Paralisada, vi quando o homem acenou pra mim. Imediatamente voltei pra dentro de casa, atravessei a pequena multidão, fugindo dos olhares dos meus pais e em segundos estava na cozinha, a sós com meu buquê.

Naquele instante descobri os sintomas da hipotermia, mas não só os pulmões estavam congelando, era como se eu tivesse feito uma transfusão de sangue com uma lagartixa, nunca estive tão gelada, nem tão trêmula, nem tão pálida?

Mas passado o susto? Veio a deliciosa sensação que as mulheres têm quando são escolhidas por um homem para receber flores. É como se o lustre no teto se transformasse num holofote, o piso vira uma passarela e parece que um avião passa no céu carregando uma faixa enorme que diz: GAROTA, FLORES? SÃO PRA VOCÊ!

A gente automaticamente se sente a pessoa mais especial do mundo, mesmo que o remetente não seja um príncipe. Na ocasião do meu primeiro buquê, tratava-se de um dos homens mais feios da cidade. Azar? A emoção foi a melhor possível!

Mas tem um detalhe!  As flores só criam o efeito sangue de lagartixa se forem dadas por um fã! Flor de amiga, de mãe, de tia, é bom, mas não vale!

Sei disso porque de uns anos pra cá, recebo sempre no dia do meu aniversário nas primeiras horas da manhã, um vaso de orquídeas. Sei exatamente quem manda apesar da ausência do cartão. O melhor de tudo isso é que essa pessoa sabe que torna a data ainda mais especial, que passo o dia suspirando por ele!

Do último dia 14 de julho pra cá não ouvi mais aquele barulhinho do papel celofane em meus braços, mas no mês que vem o vaso vai chegar. Porém, com saudades de ganhar flores, toda vez que o porteiro do prédio onde eu trabalho me entrega correspondências pergunto assim: E as minhas flores, chegaram? Gentil ele responde: Não. Ainda não! Aí então, a gente troca um sorriso, uma promessa fica no ar, na certeza de que sempre existirão homens que mandam flores e que as mulheres nunca receberão um buquê desacompanhado de um turbilhão de emoções!

Bj

Mari

@marilucyc