Grandes da MPB sem apetite

Caetano Veloso & Chico BuarqueCaetano Veloso & Chico Buarque

Pouco afeito à folia de Momo, durante o carnaval botei uma playlist de clipes antigos para rolar no You Tube e fiquei observando Jorge Benjor (era Ben, naquela época) e Caetano cantando Ive Brussel. Jorge entraria em um ostracismo logo após, voltando a aparecer na mídia com W/Brasil, no final da década. Mas Caetano e Chico, não. Volta e meia ganhavam um alento, mas nunca brilhariam tanto como nos anos 60 e 70.

A partir dos 1980, tiveram lampejos, mas nada que se comparasse à produção anterior. Nos 90 em diante, envolveram-se mais com cinema e literatura. Chico acabou de lançar com sucesso mais um livro, O irmão alemão. Não sou um chicomaníaco, acho sua obra como escritor mediana, não sei se vou ler seu último trabalho. Creio que ambos não encontraram mais desafios dentro da música. Realmente, se C & C resolvessem, a partir do fim da ditadura militar, dar por encerradas suas carreiras de compositores, já teriam feito o máximo possível. Há quem diga que se Chico resolvesse verter sua obra para o inglês, ganharia o mundo. É possível, creio estar no mesmo nível de Cole Porter, que é um ícone. E com uma grande vantagem, pois Chico escrevia canções falando como mulher de uma forma que mulher nenhuma faria melhor.

Voltando a falar de C & C, tivemos o prazer de vê-los recebendo convidados em seu programa de tv, em 1987. E pelo menos no ar, se havia alguma aresta, não ficou clara. Boato ou não, inimigos pareciam não ser. Chegaram a gravar um disco ao vivo nos 70. Mas são personalidades bem distintas, com certeza.

Talvez o inimigo comum de ambos tenha sido o dínamo. Quando a falta de liberdade acabou, a centelha parece ter ido junto. Talvez a maturidade intelectual tenha se sobreposto ao jogo da música popular (quando digo popular, é em contraposição à erudita). Talvez, talvez. Talvez nunca saibamos o porquê de nunca mais os dois nunca mais terem sido os mesmos. O fato é que as imagens criadas em obras como as que citei acima são as mais inspiradas da música brasileira e só encontram paralelo em Noel Rosa e Tom Jobim. É literatura da boa musicada com classe e bom gosto. Chico e Caetano não fazem mais nada deste nível há pelo menos 30 anos. E nem precisam. Já escreveram a história de uma época, com obras atemporais.