Grito preso na garganta

Fala, macacada!

Era final de abril ou início de maio, a população foi convocada através das redes sociais para se manifestar contra mais uma rodada de leilões de blocos de petróleo. Mais do que uma discussão dos direitos sobre os royalties, o movimento pretendia suspender a licitação até que fosse criado um plano concreto de mudanças da matriz energética, com o desenvolvimento em larga escala de fontes de energia limpa que substituíssem gradualmente, ao longo do tempo, os atuais combustíveis poluentes.

O ponto de encontro para o início das manifestações seria o Windsor Atlântica em Copacabana, onde se reuniriam os empresários interessados no nosso ouro negro. Chegada a hora marcada, lá apareceram uns 50 gatos pingados para protestar.

Menos de dois meses se passaram daquela convocação frustrada, e na  última semana, também através das redes sociais, novas mensagens pediam que o povo fosse às ruas de São Paulo para reclamar do aumento das tarifas de ônibus. Ao contrário do anterior, o tema mobilizou um grande número de pessoas, e o despreparo da polícia para lidar com uma demonstração democrática além das telas dos computadores aumentou a adesão ao movimento, replicado em quase todo o Brasil e até em outras partes do mundo.

Desde então, assistimos demonstrações diárias da insatisfação do brasileiro com a relação custo-benefício do transporte público, e uma pauta cada vez mais extensa de reivindicações. Uma avalanche de protestos foi formada, com gritos de ordem contra a tarifa do ônibus, a inflação, a corrupção, os políticos, os governos, o sistema de saúde, a Copa do Mundo, e tudo o mais que costumávamos lembrar de reclamar apenas de vez em quando, em especial quando não tínhamos o que fazer na fila do banco.

Em tantas passeatas, com tantos itens, está preso na garganta o grito contra os crimes ambientais, mesmo aqueles que impactam o dia-a-dia das grandes cidades, aos olhos de todos. Será que ninguém se importa com o cheiro de esgoto nos arredores, o gosto ruim da água, as doenças respiratórias provocadas pela poluição atmosférica, o aquecimento das ruas sem árvores?

Em um momento em que os ânimos nas ruas estão à flor da pele, as passeatas seguem insensíveis aos cuidados com a natureza. Todos indiferentes quando o assunto é biodiversidade, clima, energia, alimentos orgânicos, agricultura, poluição e preservação das espécies, mesmo quando se trata da espécie humana!

Pelo andar das manifestações, será necessário o próprio tatu-bola organizar uma passeata em frente ao Congresso Nacional. Pela preservação da caatinga onde vive, único bioma exclusivamente brasileiro, o bichinho teria que convocar as quase 180 espécies de mamíferos e 600 de aves que lá estão abrigadas para tentar sensibilizar o País para o drama da região, que corre o risco de acabar em função do avanço da agropecuária e do uso de lenha nativa nas indústrias.

Claro que nesta onda de manifestações plurais, ?Fuleco? aproveitaria para protestar também contra o uso não autorizado e exploração econômica de sua imagem como mascote da Copa, e pela substituição imediata do apelido ridículo que ganhou da Fifa.

Nesta caminhada, porém, o tatu e sua turma certamente encontrará pela frente uma barreira de animais fardados, predadores do bom senso, dispostos a evitar com tiros o avanço de sua causa. Mas o que são balas de borracha para quem está ameaçado de extinção?