Harmonizando cervejas

Quando comecei a conduzir degustações de cervejas em locais onde originalmente não se consumia a bebida, e falei sobre harmonização, a expressão geral foi de espanto. E a pergunta crucial: existe harmonização com cervejas?

Vamos começar definindo o que é harmonização? Harmonização em gastronomia significa uma boa união de sabores entre alimentos e bebidas. Quando falamos em harmonização, algumas pessoas logo pensam em vinhos, mas na verdade é uma união de sabores que pode funcionar para qualquer tipo de comida e bebida, como vinhos, chás, cafés e cerveja!!!

O princípio da harmonização é trazer ao comensal uma experiência que vai além do prato ou da bebida: a união harmoniosa de ambas trazendo um conjunto que agrade, que combine e que na melhor das hipóteses, inclusive, surpreenda!!!

Existem combinações de sabores famosas por gerarem sensações totalmente inusitadas e surpreendentes, embora algumas sejam já bem conhecidas. Experimente cortar um limão em quatro partes e sobre uma delas espalhar sal. Leve à boca e chupe como se fosse uma laranja. Você vai ver? a acidez do limão será ?cortada? pelo sal, e acaba ficando fácil de ingerir!

Pois bem, este é o princípio da harmonização, misturar sabores e obter um resultado que difere dos produtos envolvidos na combinação, mas que seja prazeroso. A combinação de uma bebida com um alimento gera um terceiro sabor e sensação.

Os princípios da harmonização são vários, e as exceções também, e vamos tratar deste assunto com mais profundidade em outros posts. Por enquanto, digo que para harmonizar necessitamos entender os sabores básicos de um prato, como doce, salgado, amargo e azedo, e combiná-los com os da bebida, que no caso da cerveja são os mesmos, tentarmos entender quais seriam os sabores resultantes, e assim buscarmos combinações que tragam harmonia.

A combinação pode ser por semelhança de sabores, por contraste ou para que a combinação possa gerar uma terceira característica, que torna o conjunto mais agradável do que se fossem consumidos individualmente. Claro que existem harmonizações que são tão presentes em nosso cotidiano, ou em determinadas culturas, que acabam se tornando agradáveis pelo simples fato de serem familiares.

A harmonização é uma questão subjetiva, já que não existe nada na face da Terra que agrade a 100% das pessoas, mas quando a harmonização é bem sucedida ela chega inclusive a agradar pessoas que não gostam das cervejas que entraram na harmonização, mas que apreciaram o resultado da combinação deste produto com algum alimento! Prove o limão com sal e entenderá do que estou falando.

Assim funcionam as harmonizações. Escolher uma determinada bebida que combina com determinados pratos ou preparações. No universo dos vinhos é muito comum se ouvir falar em harmonizações, mas as pessoas ainda se assustam ao ouvir sobre ?harmonizações com cervejas?, o que culturalmente é compreensível. Porém, quando se trata de atributos favoráveis que as cervejas carregam, e da imensa variedade de cervejas e suas diferentes nuances, em termos de torrefações de maltes, grau de amargor e dulçor, corpo, carbonatação, teores alcoólicos e outros, estes atributos tornam a cerveja uma bebida 100% harmonizante!!!

Com a infinidade de estilos de cervejas que temos, afirmo aqui com todas as letras que não existe uma cerveja sequer que não encontre várias harmonizações que poderiam agradar paladares exigentes e diversos, assim com não existe um prato ou simples ingrediente que não encontrem um par numa cerveja. Impossível!

Vamos então deixar um pouco as teorias de lado, para mostrar algumas combinações que já fiz e deram super certo:

Bobó de camarão com Delirium Tremens (estilo Strong Golden Ale)

Salmão recheado com cottage e endro dill grelhado, guarnecido por purê de baroa, e cerveja do estilo Saison

Tiramissú, harmonizando com Ola Dubh, uma cerveja do estilo Old Ale de maltes escuros com nuances de café e chocolate

Aqui vai um brinde a inovação e a diversidade!

Cheers!!!