Hino à brasileira

Copa do Mundo 2014 - Abertura

Estive na abertura da Copa, em São Paulo, e o que ficou claro para mim é o mesmo que bilhões de pessoas no mundo todo constataram vendo pela televisão. Sim, a festa foi pobre, daquelas de tio avarento que vive com uma aposentadoria polpuda e quando resolve convidar para o almoço serve linguiça de terceira e regula as bebidas.

Assim é a FIFA. Ganha bilhões, não paga impostos e economiza em um evento que tem apenas os Jogos Olímpicos como rival em magnitude. E reveja qualquer abertura de Olimpíada para constatar que desde a de Moscou, que foi a primeira que vi, e posso opinar a respeito, nenhuma perde para o que vimos no último dia 12 de junho.

A escolha dos artistas sinaliza isso. Nem Pitbull, nem Jennifer Lopez nem Claudia Leitte correspondem à magnitude exigida. Mesmo assim, foi o único momento em que o público sentiu alguma simpatia pelo que estava vendo, pois a música toca as pessoas, e tem uma levadinha esperta.

Isso até o público dar o show.

Após o hino croata, que foi respeitosamente ouvido –parabéns, brasileiros, é isso que se espera de um anfitrião educado-, a catarse: cantado a capela, por milhares de vozes que bradavam enchendo os pulmões a cada tomada de ar para gritar ainda mais forte, o hino criado por Francisco Manuel da Silva há quase 200 anos ganhava vida nova, sobretudo quando os alto-falantes protocolares da FIFA calaram a música e a letra de Joaquim Osório Duque Estrada, criada apenas em 1909, passou a ser cantada indistintamente por brancos, negros, jovens, velhos, homens, mulheres, casados e solteiros até o final da primeira parte. Emocionante, um doping positivo e um momento daqueles de ficar na memória para sempre.

Sem custar um centavo, conseguiu um efeito grandioso percebido por qualquer um que tenha acompanhado a transmissão e, sobretudo, por quem, como eu, presenciava e participava do feito, enquanto a arquibancada provisória do estádio do Corinthians vibrava e ondulava, magneticamente.

Cada povo acha seu hino o mais bonito. Como no caso do rio que corre na aldeia de Fernando Pessoa, é impossível classificar uma obra que tem encravado em si tantos sentimentos, apesar de reconhecer, olhando de longe, a supremacia, perante os demais, da Marselhesa.

Mas nenhum foi tão belo quanto o nosso cantado por tanta gente em um evento tão importante e em um cenário tão espetacular.