Imprensa que eu gamo!

O surgimento da fotografia jornalística no Brasil mudou o conceito dos periódicos que circulavam no Século XIX, tirando de cena a figura do ilustrador e do gravador de imagens, introduzindo definitivamente a do repórter fotográfico. Henrique Fleiuss, proprietário do ?Semana Illustrada? que teve o início de circulação em 1860, foi o pioneiro na nova demanda da imprensa brasileira, tendo sido o primeiro periódico a cobrir fotograficamente a Guerra do Paraguai, que junto da Guerra da Criméia e da Guerra Civil norte-americana, foram os conflitos mais fotografados pelos colegas nesse século.

Enquanto isso, paralelamente iniciava-se a publicação dos primeiros retratos políticos do país, claro que na figura de D. Pedro II! Diversos jornais já estampavam em suas páginas as fotos de divulgação que o próprio cerimonial do Império cedia (nosso imperador já era um ?expert em marketing pessoal?!). Ele, que foi o governante sempre visionário de um Brasil antenado com o mundo, e que trouxe a fotografia ao Brasil, não podia deixar de ser o protagonista desse novo e maravilhoso conceito da fotografia que é o fotojornalismo.

O fotojornalismo político vem de uma cultura na imprensa brasileira dessa época. Nós fotógrafos temos que estar muito bem informados a respeito da situação do momento: por um descuido se perde uma ótima foto! Isso é crucial em qualquer área do fotojornalismo, mas na política, por vezes, não é a situação que você vai retratar o mais importante: detalhes que passam desapercebidos aos olhos de muitos não podem fugir aos seus, à sua lente. Sempre fui apaixonado por fotografia política, mas por conta dos caminhos profissionais nunca estive focado diretamente nela.

Lembro que uma vez fui pautado para uma entrevista com o então governador do Rio, Leonel Brizola, em um hotel da Zona Sul do Rio. Entrevista normal, não chegava a ser uma coletiva, presentes apenas alguns veículos da imprensa, entre eles o Jornal do Brasil, que eu representava. Como o Brizola era um proseador nato, o encontro que era para durar mais ou menos uma hora, já se alongava por duas horas? e, sem pressa, ia ele trocando de assunto com a habilidade que soubera muito bem fazer ao longo da sua extensa carreira política. Os horários foram apertando e os colegas foram saindo um por um, mas o repórter que estava comigo, como eu, era um profundo admirador da oratória do governador, papo continuando até que o assessor pediu encarecidamente que Brizola se despedisse, pois tinha uma agenda à tarde. Com muita dificuldade conseguiu!

Ele se encaminhou para o elevador. Teoricamente, o protocolo rezava que eu não deveria descer com ele,  mas não sei porque impulso eu entrei no fechar das portas. Pois assim que começamos a descer, o elevador parou com um tranco daqueles! Isso mesmo, enguiçou lá pelo vigésimo andar. Nada mal, com um governador dentro que era, além de um grande orador, um piadista de horas impróprias excelente! Tive tempo de ouvir e me deliciar com umas três anedotas de pessoas presas em elevador, o que descontraiu o clima, principalmente para uma hóspede que ali estava  e que pelo jeito não entendia nada do idioma de Camões? Aliás, ria mesmo era de nervoso!  Após alguns minutos, mesmo sem esgotar o numerário extenso de piadas de Leonel, o socorro chegou e a porta se abriu. Nessas ocasiões, quase sempre o elevador fica pela metade do espaço, foi o caso; teríamos que ser puxados para fora. Imediatamente eu tomei a frente, mas sob o protesto de Brizola:

  • Bá, tchê!!! Não tens educação? Primeiro as damas! ? disse segurando meu ombro.

  • Governador, educação eu tenho sim, mas nessa situação aqui, primeiro os fotógrafos, depois as damas e os demais e, por último, os governadores. ? disse isso e já fui pulando para fora, sob risos de todos.

Fotojornalismo é isso, 10% de técnica e 90% da oportunidade de estar no lugar certo e no momento certo. Podemos pensar que se eu não tivesse simpatia por ele teria encerrado a entrevista e descido bem antes com outros colegas; mas no caso específico de Brizola, eu gostava realmente do que vinha pós-entrevista, quando se desligava o gravador e o repórter não mais anotava.

Sempre que trabalhamos com fotografias de governadores e presidentes tudo pode ser mais difícil. Lidamos por vezes com assessores mal humorados, seguranças que consideram todos os fotógrafos terroristas, a população que acha que estamos sempre atrapalhando e, em todas essas variáveis, temos que prestar atenção em algum detalhe que vai fazer a diferença entre a nossa foto e a dos inúmeros colegas ao lado. Trocamos de lente, variamos a velocidade com que fazemos as imagens, mas quase sempre não saímos do lugar determinado pelo grande staff que faz parte do show.

A posse do presidente Lula em 2003 foi um caso desses. Aquele evento era um grande show, tudo muito bem organizado pelo PT e pelo cerimonial da Presidência. Lula embarcaria na Catedral de Brasília e iria de carro aberto até o Congresso, onde juraria a Constituição. Para nos facilitar, o cerimonial conseguiu um caminhão de transporte de cavalos da Polícia Rodoviária Federal. Isso mesmo, um caminhão que antes de nós transportava cavalos. Claro que foi adaptado com um praticável para nos ajudar, mas vou te contar uma coisa: o motorista não foi avisado que a carga dele tinha mudado? ou foi avisado e ele achou que seria a mesma coisa. Fomos devidamente ?brifados?! Naquela situação, imagina-se que não davam muita margem para pedirmos algo. Ameaças do  tipo: ?uma vez em cima do carro vocês não podem mais descer, se isso acontecer não poderão voltar mais?. Fogo!?

Assim foi, uma vez no caminhão de equinos não mais sairíamos até a chegada de Lula no Palácio do Planalto. Tudo isso pode parecer rápido, mas nesse caminho relativamente curto ? quem conhece Brasília sabe -,  tinha um mar de gente, todos devem se lembrar; e ainda havia a parada no Congresso. Foram 4 horas em cima do diabo do caminhão, sem banheiro e sem água, com o motorista freando como um louco; toda hora caia um fotógrafo sobre o outro, por vezes ele acelerava e se afastava demais do Rolls Royce presidencial, por outra ele esquecia e o Rolls tinha que parar atrás do caminhão, forçando os segurança que estavam a pé a bater na carroceria para ele andar. Como se vê, bem tecnológica a comunicação entre os diversos seguranças.

Isso tudo nos forçava a trocar de lentes o tempo inteiro: ora usávamos uma grande tele, ora uma lente mais curta; isso foi o tempo todo, levando quase todos os colegas a optarem por esperar o caminhão ficar na distância que sempre deveria manter para fotografarmos. Mesmo que ele parasse e o Rolls chegasse, no meio do caminho não se trocava mais lentes. Num desses momentos em que eu estava com uma lente mais curta, fotografei todo o lance de um simpatizante agarrando o presidente, eu e um fotógrafo da Folha de São Paulo apenas. Estávamos os dois com uma lente mais curta, não dando tempo de os outros colegas trocarem as suas na hora. Isso é o quê? Só pode ser sorte, né não?!

Claro que ai entra a técnica também, mas convenhamos que todos os colegas estão no mesmo nível. Fotojornalismo então é isso aí, é o que podemos chamar de oportunidade*, *a palavra-chave da nossa profissão!

Poderia contar mais uma dezena de casos e ?causos?, mas mostrar é bem melhor. Muitas vezes mostramos o que não é verdade, tudo depende de ângulos. No caso de uma foto que mostro aqui, em que os três olhares convergem para uma bunda feminina, parece isso mesmo! Mas não é? o Lula, a Dilma e o Eduardo Dutra estavam olhando para algum ponto próximo de onde a governadora Rosinha estava se encaminhando. Isso, lógico, eu constatei na hora; não era uma foto publicável, mas interessante do ponto de vista fotográfico.

Isso é o fotojornalismo, seja ele político, esportivo ou qualquer que seja, é sempre viciante saber que tudo pode ser diferente no próximo clique?