Invasão de privacidade

Dia desses, estou em casa e o telefone toca. ?Por favor, eu gostaria de falar com a Amanda?, ouço, do outro lado da linha. ?Sou eu, quem fala??, respondo meio desconfiada, já que não reconheço a voz do outro lado.

Desde que a onda de trotes-e-golpes telefônicos começou, confesso que sou muito ríspida ao telefone quando não reconheço o número de quem está ligando. Geralmente pergunto com quem e sobre o que quer falar, antes de mais nada. Afinal, apesar de ter colocado o número do meu telefone naquela lista do Procon, de pessoas que não querem receber ligações de empresas de telemarketing, ainda sou surpreendida por estes invasores de privacidade.

A moça prosseguiu: ?Aqui é fulana, de tal clínica estética. Estou ligando porque fizemos um sorteio entre os alunos de tal academia e você ganhou uma avaliação gratuita?. Não deixei ela terminar de falar, pois, enquanto ela falava, os meus olhos reviravam (o que é um péssimo sinal em se tratando da minha pessoa). ?Como assim, tal academia passou o número do meu telefone para você?! Eu não frequento esta academia há mais de três anos. Pior de tudo, eu nunca dei autorização para que eles divulgassem meus dados pessoais para qualquer um!?

Foi a vez da moça se encher de razão. ?Nós não somos qualquer um. Nós somos uma clínica de estética e estamos ligando para oferecer um presente para você, uma avaliação gratuita. Você deveria ficar feliz??

Enquanto ela dizia isso, eu pensava: presente? Eu acabara de saber que uma famosa academia da Cidade, que frequentei por pouquíssimos meses, havia divulgado os meus dados pessoais para terceiros. Sem a minha autorização. Dados que eu informei no ato de matrícula, única e exclusivamente para aquele fim.

Sim, realmente, eu deveria ficar muito feliz ao saber que os meus dados pessoais estavam sendo divulgados por aí, em uma época que informação é sinônimo de dinheiro. Sim, eu deveria estar exultante diante da possibilidade de alguns prestadores de serviço serem tão irresponsáveis que os meus dados pessoais podem cair nas mãos de criminosos.

A garota que me ligou ainda quis me convencer de que eu estava errada. Não teve conversa. Assim que desliguei, procurei o telefone da antiga academia, liguei e contei o ocorrido. Pedi que eles apagassem todos os meus dados, e avisei que se uma situação como aquela ocorresse novamente, eles teriam problemas.

Certamente há leis destinadas a proteger o sigilo de nossos dados pessoais. Se não existir, algo está muito errado (ainda mais errado, eu quero dizer) neste País.

Eu não quero ter a minha privacidade invadida e farei de tudo para protegê-la. E tenho certeza que não sou a única. Então, fica aqui um alerta: preste muita atenção onde você divulga dados pessoais. O número do telefone é o mínimo dos problemas. Já o CPF e o RG são documentos que podem criar um enorme problema.

Hoje em dia se fala tanto em roubo de dados pessoais no mundo virtual, que a maioria das pessoas se esquece de que vivemos em um mundo real, onde a apropriação indevida de dados pessoais é mais comum do que se pensa. E, no mundo analógico, ainda não foi inventado um antivírus que resolva.

Amanda de Almeida