Ipiabas: uma viagem no tempo

Madalena mora em Jotuomba, e faz todos os dias a mesma coisa: amassa e assa o pão, segue pelo trilho do trem até a mercearia, arruma o pão na prateleira, faz os mesmos comentários, encontra as mesmas pessoas e reza na porta do cemitério para o marido.

Jotuomba, que viveu sua prosperidade nos anos 30 e parou no tempo após ter sua economia arrasada pela falência das ricas fazendas de café, é uma cidade fictícia do filme ?Histórias Que Só Existem Quando Lembradas?, da cineasta Julia Murat, enquanto Madalena ganhou forma pela interpretação marcante da atriz Sônia Guedes.

Madalena é a personagem de vida simples do filme Madalena e sua vida simples em ?Histórias que Só Existem Quando Lembradas?

Jotuomba nunca existiu, mas o local utilizado para as filmagens das cenas de Madalena em sua residência, com arquitetura típica dos casarões estabelecidos na zona rural cafeeira, está lá, do mesmo jeito, em Ipiabas, distrito de Barra do Piraí.

Sentar na soleira de um casarão, tomar um café passado na hora em um coador, comer pão fresco e broa de fubá assados no fogão à lenha, acompanhado de um queijinho fresco entregue de carroça, e ver o tempo passar escutando o som do silêncio.

É em função da busca por este estilo de vida simples, do contraste com a correria e o barulho das grandes cidades, nem que seja por apenas um final de semana, que Ipiabas vem recebendo mais e mais visitantes, sem que isto afete suas principais características, de *lugarejo *bucólico e pitoresco.

O verde exuberante e construções históricas formam a paisagem de IpiabasO verde exuberante e as construções históricas formam a paisagem de Ipiabas

Estes já seriam atrativos suficientes para pegar a Via Dutra e andar pouco mais de duas horas até o sossego, mas Ipiabas apresenta surpresas para quem chega com uma proposta tão simples quanto a de descansar de nossas agitadas rotinas.

Para começar, está localizada no alto da serra, com altitudes entre 700 e 1.000 metros, o que confere ao lugar um clima privilegiado, ameno mesmo nas estações mais quentes como a que estamos vivendo. Com montanhas, cachoeiras e muito verde, Ipiabas é um convite ao ecoturismo e tem várias trilhas para caminhadas a pé ou de bike, além de passeios de jipe que podem ser contratados a partir das pequenas pousadas, forma de acomodação mais comum por lá.

A Brisa do Vale, pousada recomendada pelo Guia Quatro Rodas, é um charme só. Cravada em um vale de natureza exuberante, tem os chalés voltados de frente para um lindo lago. Você acorda ouvindo o canto dos pássaros, e pode sim tomar um café da manhã especial, como aqueles da fazenda.

Pousada Brisa do Vale, em Ipiabas, esbanja charme em meio a naturezaPousada Brisa do Vale, em Ipiabas, esbanja charme em meio a natureza

No lugarejo, casarões e casarios são o que não falta. Tem uma vila inteira só deles, construída ainda no século XIX, por um certo Capitão Mata-Gente que, reza a lenda, queria derrubar o Império e ali criou seu QG, com direito a igreja, hospital, escola, remonta e tudo mais que era preciso para abrigar os insurgentes. O principal deles data de 1874, esteve em ruínas, mas foi inteiramente reformado pela iniciativa privada e tornou-se a principal atração turística e referência como centro de cultura local.

Em outro casarão da vila fica o Restaurante da Adolphina. É o sabor do interior, comida típica, verdadeira, feita no fogão à lenha pela dona da casa. No cardápio, torresmo, galinha ao molho pardo e lombinho com tutu, entre outras delícias da vovó.

O casarão de 1874 foi restaurado e passou a ser referência cultural e turísticaO casarão de 1874 foi restaurado e passou a ser referência cultural e turística

Há outros vários bons restaurantes em Ipiabas, dos mais rústicos como o Forte, onde pode-se comer um rodízio de tilápia, até os mais elaborados como o By Laca, grill de carnes uruguaias e adega. De noite, quando chega o friozinho, têm os caldinhos do Bar do Zappa, que dispõe ainda de uma boa seleção de cachaças.

Ao contrário de Jotuomba, em Ipiabas o tempo passa rápido para o viajante que fica tentado a conhecer as belas paisagens, as marcas do século XIX, e a variada gastronomia do lugarejo. Seus efeitos, porém, são de longo prazo: o ar puro das montanhas revigora corpo e alma, e o cheirinho de mato que acompanha os passeios volta aos sentidos toda vez que as histórias daquele final de semana são lembradas.