Jair Rodrigues, sempre.

Jair Rodrigues, sempre.

Quem foi ao show de Jair Rodrigues na reinauguração do charmoso Mercado Público de Itajaí, no último sábado, viu a demonstração clara de que a expressão terceira idade ganha outros contornos quando o referido representante da chamada “melhor idade” faz o que gosta, cuida do seu físico e, claro, tem uma carga genética privilegiada. O Cachorrão contou que o apelido lhe foi dado por Raul Gil e Hebe Camargo, brincou o tempo todo com os músicos, mostrou sua energia e interagiu vivamente com o público por mais de uma hora, cantando sambas, relembrando histórias, incluindo seu período de TV em que dividia o palco de O Fino da Bossa com Elis Regina e reservando para o final seus três maiores sucessos como intérprete.

Deixa Isso Pra Lá é o início do Rap, isso em 1964, muito antes de surgirem os primeiros representantes do gênero, nos EUA? Pode ser, e no arranjo funkeado que a excelente banda que acompanha Jair apresenta, é extremamente fresca, renovada. Mas talvez não seja a maior contribuição de Jair para a música. Com certeza não é a sua interpretação de Sua Majestade, o Sabiá, lançada já na onda sertaneja surgida no final dos anos 1980. Jair Rodrigues cantando Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, sim, é um dos momentos maiores da MPB, 1º lugar no II Festival da Música Popular Brasileira de 1966, empatado com A Banda, de Chico Buarque.

O negro sambista dando voz a uma música de andamento sertanejo, com letra inspirada e ao gosto do público da época. O sertão encontrando o morro na metrópole. Tudo isso personificado por um paulista do interior. O retrato do Brasil que se tornava urbano, em meados dos anos 1960. Curiosamente, Jair cantava Disparada para manifestantes que faziam um protesto silencioso e ajudavam a multiplicar o movimento que remete às passeatas tão comuns no período dos festivais.

O Brasil de novo nas ruas, como nos anos de chumbo. Jair tem 74 anos, e não fossem as mais de cinco décadas de carreira, poucos lhe creditariam tal idade. Seus filhos militam na música desde pequenos, e certamente tiveram no pai o maior estímulo, pois Jair Rodrigues, no palco, é uma criança que se diverte, planta bananeira, brinca, canta, dança, na performance que os gringos gostam de imputar aos entertainers . E, Luciana Mello e Jair de Oliveira, crianças, vendo isso, não tinham como escolher outra carreira que pudesse ser tão divertida e produtiva.

Longa vida a Jair Rodrigues.

Nota do Autor: Este texto foi escrito sob o impacto da apresentação de Jair Rodrigues por ocasião da reinauguração do Mercado Velho de Itajaí, no dia 15 de junho de 2013. Terminei desejando longa vida a ele. Que pena! Não fui atendido.