Ladrão d'alma

Espiritualidade sempre é um tema delicado, mexe com o cerne de quase todas as religiões, portanto todo cuidado é pouco ao se falar sobre. Mas na minha profissão, como já disse antes, passamos por tudo um pouco e esse ensaio aqui no blog tem me permitido uma releitura do meu trabalho, lembrando de fatos que já não mais recordava, mas isso faz parte da magia da fotografia. Quem nunca pegou uma foto antiga de um bom momento e recordou até o cheiro que sentiu no dia que foi feita a imagem?

Alguns nativos, daqui ou de outros lugares, temem que uma foto roube sua alma, quem sabe isso não seja verdade? Roubar seria demais, mas com certeza naquele segundo da captação da imagem, um pequeno pedaço nosso fica congelado eternamente.

Mas vamos ao fato do começo, espiritualidade. Trabalhava no Jornal do Brasil, idos de 97, estava por razões pessoais muito interessado na mediunidade e outros assuntos ligados, lia muito sobre reencarnações e terapia de vidas passadas. Só que isso como tema no cotidiano das redações não é frequente, apenas quando se tem fatos que chamam a atenção de periódicos voltados para o sensacionalismo.

Esse era o caso do Dr. Fritz, entidade espiritual que já incorporou diversas pessoas pelo mundo nas últimas décadas, alguns ficaram famosos como José Arigó e outros tantos depois, mas no caso aqui vou focar no Rubens Faria, engenheiro eletrônico que tinha, entre um e outro holofote na imprensa carioca, atendido o ex-presidente da República João Figueiredo e jurado ter sido consultado pelo ex-ator Christopher Reeve (o Super-Homem). Ainda tinha mais gente nesta lista, por isso o interesse de jornais ?sérios?, que lidavam com esse assunto com o maior cuidado possível.

Pois surgiu essa pauta na fotografia, acompanhar um dia de atendimento do Dr. Fritz (Rubens Faria) em um galpão imenso no bairro carioca de Bonsucesso, a princípio eu não fui pautado para tal, um outro colega foi escolhido, e eu sequer sabia da pauta antes de ter sido colocado nela.

O colega em questão tinha o desafio de convencer o Fritz, ou Rubens, da importância da matéria, e por uma semana fotógrafo e repórter se revezaram na tarefa de convencer o ?staff? do médium de realizar a pauta, mas nada foi conseguido. Segundo consta, o próprio vetava a  entrada, não sei se o Fritz ou Rubens, e isso é comum nesse fato.

Fotógrafo vai, fotógrafo vem, nada da matéria, o editor estava já no seu ?dead line? quando ele se lembrou do meu gosto pelo assunto, me perguntou antes o que eu sabia sobre o caso, se eu conhecia o assunto ?Fritz?, eu é claro estava antenado, pois tudo que se referia a isso eu andava ?devorando?.

  • Perez, preciso que você assuma essa pauta, o fulano não conseguiu autorização para fazer, não sei se tem a ver alguma coisa, mas já que você gosta do assunto vai que consegue, temos que arriscar, estamos em cima do laço para fechar.

Claro que fui para a missão achando que não ia dar certo, era uma quinta-feira e a matéria fechava na sexta, pois seria publicada no domingo. Para quem não conhece muito da área, parte do jornal de domingo é feito na sexta-feira, no famoso ?pescoção?, no jargão jornalístico.

Chegando no galpão imenso que ele atendia, pedimos ao ?segurança? que filtrava a entrada de pacientes para que informasse ao Fritz/Rubens que precisávamos fazer a matéria e tal, se ele podia pelo menos conversar conosco. O segurança já tinha barrado a equipe algumas vezes, por isso relutou em voltar a pedir a mesma coisa ao médium, mas foi lá. E voltou com a incrível liberação, a repórter me olhou sem entender nada, e nem eu, pois achava mesmo que não iríamos entrar.

Uma vez lá dentro a visão era de um hospital de campanha, nunca estive em um, mas por fotos eu diria que era um sim, uma fila ordeira de pacientes esperava pela triagem que o próprio médium fazia, conversando e principalmente tocando em todos.

Um desses pacientes, ele demorou um pouco mais, isso tudo eu estava ao lado dele, pois o mesmo tinha autorizado que eu fizesse qualquer registro fotográfico que eu quisesse, pois bem, ele examinou esse senhor que teria uns 70 anos, reclamava de uma dor de cabeça diária que não passava com nenhum tratamento. Ele na mesma hora chamou um dos médicos que o acompanham e pediu para raspar a cabeça do paciente, que iria operar, eu pensei, como assim operar?

Após essa triagem ele entrou em uma espécie de tenda, na qual o paciente já estava com a cabeça devidamente raspada e deitado, ele pegou um bisturi e começou a fazer uma fenda no topo da cabeça, eu olhando e fotografando tudo, o paciente acordado e conversando comigo sem o menor problema. Nisso a repórter passou mal e saiu da sala, mas eu não tinha reparado nisso, sendo o próprio que me avisou, ?sua amiga passou mal e saiu, mas ela está bem, só não aguenta ver sangue pelo jeito?, o que foi confirmado por ela depois.

Após a incisão, o médium fura o crânio com uma furadeira que eu acredito ser de uso cirúrgico. Depois enfia uma agulha onde, segundo ele, retira o coagulo que o estava incomodando, tudo isso é claro com o paciente acordado, e eu falando com ele. Ao mesmo tempo em que ele acaba essa cirurgia aparece um rapaz paraplégico que ele vai atender em outra tenda, as fotos são desse menino, e ele opera a coluna dele como dá para ver na foto, batendo em cima do bisturi, sem a menor reação do rapaz.

Em certo momento dessa epopéia de emoções, ele volta para a fila, e no atendimento local uma mãe se aproxima dele com o filho no colo, o menino parecia ter alguma doença motora grave, não conseguia ficar em pé, só no colo da mãe. Pois então o médium tira uma seringa de uma bacia, que o médico que o acompanha sempre carregava ao lado, e injeta no pescoço do menino um líquido deveras suspeito, mas enfim?

Fiquei passado com essa cena, pensando realmente como aquilo poderia ser uma fraude, uma enganação e sei lá mais o que, mas tudo no pensamento, pois meu trabalho sempre está acima de minhas convicções.

Neste mesmo momento ele me pega pelo braço, me puxa para o canto, e diz: ?sei que você acha que estou enganando a mãe dele, mas vou te dizer, a única coisa que eu não posso ajudar é em relação ao sistema nervoso central, é o caso desse menino, aí você me pergunta porque da injeção então, eu te respondo com uma pergunta apenas, você viu como a mãe dele saiu mais tranquila daqui, viu o rosto dela de alívio? É ela que eu ajudei na verdade??

Teria muito mais coisas para contar sobre esse dia, que foi deveras interessante, mas que deixou poucas fotos para registro, pois o negativo não ficava conosco. Localizei estas duas fotos comigo, mas o assunto vai muito além das imagens, e poucas vezes lidei com um assunto tão polêmico e tão apaixonante para mim?