Nova Iguaçu, terra da laranja?

( Se a história, não obstante, para qual nos arrasta assim uma atração quase universalmente sentida, só tivesse isso algo para se justificar, se fosse apenas, em suma, uma amável passatempo, como o bridge e a pesca, valeria a pena todo o esforço para escrevê-la? ? *MARC BLOCK, Apologia da história ou o ofício do historiador, p. 44 *).

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Introdução

Antes de escrever essas linhas caro leitor estava aqui olhando no guia Elefante Verde a quantidade de estabelecimentos comerciais que a cada dia aparecem em Nova Iguaçu. Bem, olhando para toda essa economia emergente não pude evitar de lembrar das laranjas?

  • Laranja? O que isso tem a ver com a economia de Nova Iguaçu?

Bom, essa é uma velha história. Deixa eu te contar?

Capitanias Hereditárias e Sesmarias na Colônia- Defesa e Produtividade para a Colônia Portuguesa.

De uma maneira geral a ocupação do território do Brasil sempre foi motivo de preocupações para os nossos velhos colonizadores Portugueses. Afinal, como controlar em pleno século XVI uma grande e extensa colônia? Local, outrossim, extremamente rico e cobiçado por muitos!

Portugal era muito diferente do futuro Brasil naquela época. Como bem nos lembra o Historiador Sérgio Buarque de Holanda:

?A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato mais dominante e mais ricos em conseqüências.? (HOLANDA, 2008, p. 31). A demarcação e doação de terras teve sua primeira ideia administrativa nas chamadas capitanias hereditárias.

É, capitanias hereditárias? Talvez você, caro leitor, decorou esse conceito chato na quinta série para passar na prova de História. E depois, obviamente, se esqueceu dele. Pois é, mas as capitanias hereditárias nada mais foram que um sistema criado por D. João III, em 1534, que consistia em dividir a terra do Brasil em grandes partes e entregar aos chamados donatários.

Com isso, Portugal garantia, através de particulares, a defesa da sua terra e o recebimento de impostos da sua colônia. (FAUSTO, 2012).

Outro sistema criado com o intuito de aumentar a produção agrícola na colônia foi a chamada sesmaria. Com ela Portugal queria estimular a produção da agricultura, já que devido à grande extensão geográfica brasileira, muitas terras ficavam abandonadas.

Como nos lembra o Historiador Caio Prado Junior: ?O que caracterizada as sesmarias é a obrigação do seu aproveitamento por parte do seu donatário? (Junior, Caio Prado, 1933 p.15).  Ou seja: um doador que recebia a sesmaria (chamado de sesmeiro) era obrigado a tornar produtivo o seu lote de terra/sesmaria; gerando com isso, lucro através de impostos que ele devolvia a coroa Portuguesa.

Não obstante, caso o doador não gerasse ganhos econômicos para Portugal em até cinco anos, ele poderia perder a terra e até mesmo ter um grande prejuízo: ?O prazo variava, sendo em principio de cinco anos, excepcionalmente mais. Como sansão figurava a perda da terra e uma determinada multa pecuniária? (IDEM , 1933 p. 15).

É, dominar um território com ameaças de Franceses, Holandeses, Espanhóis e índios não muito contentes as vezes, não foi tarefa fácil para os Portugueses. Com esse esboço de estratégia administrativa acho que eles não podem ser considerados tão burros assim.

A sesmarias e os laranjais?

Eu sei, você já está me perguntando: ? Mas o que essa História toda tem relação com Nova Iguaçu? E as laranjas? Calma caro leitor, só lembrei principalmente desse conceito de sesmaria para lhe contar que na Baixada Fluminense também foi adotado esse sistema administrativo desde o ano de 1538.

Como nos diz Queiroz e Gamarski: ?em 1565, Estácio de Sá doa uma sesmaria às margens do rio Iguaçu a Cristovão Monteiro?. ( QUEROZ, GAMARSKI p.2).

Cristóvão Monteiro foi o primeiro ouvidor geral do Rio de Janeiro e se destacou na defesa das terras brasileiras contra os franceses. Na época colonial a doação de benesses e privilégios ( ex: terra ou títulos nobiliárquicos) em troca de favores ou serviços prestados a Portugal era muito comum.

Com a morte de Cristovão Monteiro, a sua viúva não consegue controlar as despesas da sesmaria. Sendo que a mesma foi doada por ela aos monges beneditinos. Bom, nessa Sesmaria da Baixada Fluminense eram cultivadas no século XVI E XVII diversos alimentos sendo que os principais eram: cana de açúcar, café e aguardente. (PEREIRA, Waldik 1970).

Somente mais tarde, no séc. XIX, é que a laranja foi trazida para a Baixada Fluminense: ?A laranja também encontrou na região de Nova Iguaçu clima, relevo e solo propícios ao seu cultivo?.(* IDEM, p. 5*).

Gerando um alto crescimento econômico principalmente pelo seu aspecto de exportação, a laranja motivou a criação de diversas pontes e obras que acabaram, pois, modernizando a região da Baixada como um todo: ?Os exemplos desses investimentos foram a criação da Rodovia que liga a cidade do Rio de Janeiro a Petrópolis, Washington Luís, a estrada Rio-São Paulo e a avenida Automóvel Clube?( IDEM, p. 3).

Auge e declínio da Laranja.

As laranjas da nossa Baixada Fluminense eram um produto altamente consumido na Europa; e, obviamente, um produto tipicamente feito para a exportação. A fase da laranja teve o seu apogeu em Nova Iguaçu entre os anos de 1920 e 1940 (PEREIRA, Waldik 1970).

Com o início da Segunda Guerra Mundial; a mesma perdeu força devido à própria crise econômica gerados pelos altos custos da guerra. Os próprios navios europeus que levavam a laranja para a Europa em estado de Guerra poderiam sofrer, outrossim ataques. Por isso evitaram nessa época aportarem nos nossos portos.

?A deflagração da Segunda Guerra Mundial, conflito no qual foi interditada a navegação comercial por causa do perigo dos ataques às embarcações; dessa maneira, os navios frigoríficos que levavam a laranja para a Europa não mais aportaram no Rio de Janeiro e a produção não pode mais ser escoada?.(* IDEM, p. 5*).

Nem só de laranjas vive Nova Iguaçu!

As Laranjas nos proporcionaram sem dúvida um grande crescimento econômico. Mas como dissemos até aqui, outros alimentos (principalmente de subsistência) continuaram e continuam a ser plantados em Nova Iguaçu. Sua importância extrapola o próprio aspecto econômico. Um exemplo disso é a atual ?Festa do Aipim? que ocorre em Tíngua. A qual não é somente uma festa ou local de compras, porém, também, uma manifestação econômica/cultural da nossa própria História.

Concluindo?

Bem, agora que já fiz minha parte, vou continuar aqui no guia Elefante Verde buscando algum lugar legal para curtir e fazer a economia de Nova Iguaçu continuar ?girando? independente ou não das velhas laranjas. Ah, mais obviamente, como alguém que adora História, deixo abaixo uma lembrança em imagens do século passado dos nossos laranjais e da nossa cidade.

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Plantações de Laranja em Nova Iguaçu: década de 1930.

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Anuncio da produção de *Laranjas *- Década de 30.

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20 de setembro de 1940. Vista do Centro da cidade. No meio vemos a atual Catedral de Nova Iguaçu *- Santo Antônio de Jacutinga. Foto pertence à diocese de *Nova Iguaçu.

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Avenida Marechal Floriano Peixoto ? Década de 30.

Referências:

Artigo acadêmico:

  • TRANSFORMAÇÕES NA AGRICULTURA EM NOVA IGUAÇU (RJ) Autores: Edileuza Dias de Queiroz ? UFRJ; Elen Araujo de Barcellos Gamarski ? UFRJ

Livros:

  • MARC BLOCK,- Apologia da história ou o oficio do historiador. Editora ZAHAR. 2002.

  • PEREIRA, Waldik. Cana, Café e Laranja: história econômica de Nova Iguaçu. Rio de, 1970. Fundação Getulio Vargas: SEEC, 1977.

  • Caio Prado Junior. A evolução política do Brasil. Editora Brasiliense. 1 edição: 1933.

  • Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Editora Companhia das Letras. 26 edição. 2008.

  • Boris Fausto. História do Brasil. 14 edição. 2012. Editora Edusp