Luciano do Valle, 5 de julho de 1982.

Luciano do Valle
Como a maior parte das pessoas, fui surpreendido com a notícia da morte do locutor esportivo que marcou várias gerações de brasileiros, por ter sua carreira construída ao mesmo tempo em que a televisão no Brasil atingia seu ápice.

Ao rever as narrações da Copa de 1982, fiquei com a impressão que regredimos, no futebol e nas transmissões esportivas. Se a seleção de Sócrates, Zico, Éder, Júnior e, sobretudo, Falcão ainda provoca saudade, ouvir a narração sóbria mas empolgante, precisa e ao mesmo tempo onírica de Luciano do Valle também traz a sensação de que algo se perdeu em 1982.

Hoje temos tecnologia, mas somos inundados pelo marketing. Temos abundância de profissionais, mas poucos conseguem dosar o real interesse jornalístico, separando-o da promoção pessoal.

Luciano foi formado no rádio, como a grande parte dos talentos que até hoje admiramos nesta área. Diferentemente de outro grande locutor esportivo de rádio, Osmar Santos, conseguiu fazer com sucesso a transição para a TV e nela se manteve. O grande ponto de mudança de sua carreira deu-se justamente em 1982. Logo após a Copa da Espanha, ousado, resolveu tornar-se empreendedor, bancando a aventura que seria a transformação do vôlei no segundo esporte no coração dos brasileiros. Até aquela época, o basquete era a segunda paixão nacional. Tornou-se Luciano do Vôlei, empresário, dono da Luqui e as transmissões esportivas nunca mais foram as mesmas, fosse na Record, onde iniciou sua carreira empresarial e ficou associado ao vôlei, enquanto Silvio Luiz continuava narrando futebol, ou na Band, onde a consolidou.

Luciano se sentia à vontade para convidar amigos – que nem sempre acrescentavam à transmissão-, enaltecer Pernambuco, onde foi morar, muitas vezes às custas da neutralidade e fazer discursos que não tinha liberdade para fazer quando funcionário da Globo. O locutor ficou em segundo plano.

Assim, gostaria de arrematar este texto com a inspiração que Luciano do Valle, talvez até motivado pelas mudanças que se punham em seu horizonte profissional provocou naquele menino que chorou a derrota de Sarriá. Locutor que sabia que televisão é imagem, e as palavras devem ser concisas a ponto de apenas ilustrar as jogadas. Menos adjetivos, mais informação. A empolgação guardada para os lances inesquecíveis, os gols realmente importantes, e nada de ufanismo. A transmissão da Copa de 1982 tinha poucas câmeras, as vinhetas eram feitas analogicamente, mas o potencial humano era alto.

Inexplicavelmente, há trinta e dois anos era mais saboroso assistir a uma partida do Brasil narrada por Luciano do Valle. O gol de Falcão, narrado por Luciano, ainda ecoa na minha mente, como um dos momentos mais felizes de toda a minha vida. Uma partida inesquecível, um moleque ensandecido , um locutor esportivo perfeito, uma seleção de sonhos. O mundo poderia ter parado nesse momento daquele 5 de julho de 1982.


Roberto Vieira. Publicitário, Radialista (Programa Tá Ligado!, Univali FM94.9) e Mestre de Cerimônias. Sócio-Proprietário da Duo Publicidade e Treinamento