Lulu Santos 30 anos Depois

Desta vez Lulu Santos não concedeu a menor possibilidade de fracassar, como aconteceu há trinta anos em seu primeiro Rock in Rio. Durante uma hora, sapecou uma saraivada de sucessos, interrompida apenas uma vez com a nova Sócio do Amor. Como se fosse um extrato desta edição do festival, Lulu fez suas escolhas, errou pouco, acertou sem ousar. Pecou justamente pela falta de criatividade.
A escalação criticada do evento deixou de fora nomes que certamente trariam mais interesse, como Alabama Shakes, Tame Impala, Ana Cañas, com trabalhos novos e consistentes. Lulu poderia ter inserido Fogo Amigo, a melhor de suas últimas, mas pouco conhecida do público que cantou junto os hits dos anos 90, que abriram o show, e os dos anos 80, que fecharam, com a unanimidade ao final, Como Uma Onda.
Se a escalação do Rock in Rio conseguiu seus maiores êxitos ao colocar justamente os medalhões como Lulu, System of a Dawn, Metallica, ao lado do estrelado Sam Smith, além das mega-stars Rihanna e Katy Perry, Lulu não abdicaria de A Cura, Apenas Mais Uma de Amor ou Já É. Em 1986, meio farto do rock and roll, gravou Condição, um funk que apontaria novos caminhos que redundariam nos hits dançantes dos anos 90. Música que sacudiu o público, mesmo com a (falta de contribuição de) Mr. Catra, convidado dispensável. Quando deixou a slide guitar a cargo de Rodrigo Suricato para o duo formado por Um Certo Alguém e O Último Romântico, era como se demonstrasse ali que não mais sua persona roqueira como preponderante. Como o Rock in Rio. Que erra justamente ao conceder apenas uma hora para nomes como Lulu, que podem ficar 3 horas tocando sem deixar o público parar de cantar junto.

Menção especial para a banda que acompanha Lulu. O baixo exato de Jorge Aílton, as intervenções dos sopros de Milton Guedes, a percussão de Silvio Charles –empunhando uma trepidante zabumba em Tudo Azul, com a incisão certeira do sampler de Luiz Gonzaga-, os vocais precisos de Andrea Negreiros, o time demonstra o alto grau de exigência de um dos maiores hitmakers do Brasil e guitarrista exímio. Lulu Santos resumiu o que foi esta edição do Rock in Rio. Competente tecnicamente, carente de criatividade e pouco aberto às novas tendências, feito para agradar sem ousadias, que foi justamente a grande sacada de Roberto Medina ao pensar que poderia, na caótica economia brasileira dos anos 1980, fazer do Brasil um destino interessante para os grandes nomes da música se apresentarem para um público de centenas de milhares de pessoas. O Rock in Rio virou trintão, se casou e se preocupa mais em pagar as contas do final do mês do que cair de cabeça em aventuras de final duvidoso.