Minha alma canta. Vejo o Rio de Janeiro...

Não existe, no Brasil, cidade mais citada em músicas que o Rio de Janeiro. No mundo, deve ser superada por Paris e a top de todas, Nova Iorque. Muitas explicações para que isto aconteça me ocorrem de pronto. As belezas naturais, a graça das cariocas, o fato de ser sido capital justamente em um período de ebulição da música popular, a primeira metade do século XX, que viu o surgimento de grandes sambistas e a gênese da bossa-nova.
O fato é que andar pelo Rio é tropeçar em música. Pegue o metrô e olhe para os nomes das estações. O Irajá da godiva Kátia Flávia, a estação final da Pavuna (um samba antigo que começava com um Na Pavuna, tum, tum, tum me veio de repente, calcinado na memória), na Glóriaaaaaa...é como se fosse um quiz de música, um jogo de tabuleiro musical entremeado com paisagens tão deslumbrantes quanto familiares.
Se fosse obrigatório pagar royalties por inspiração o orçamento do Rio cresceria muito. Enquanto andava por Ipanema, a letra de Virgem, de Marina Lima, funcionava como meu guia turístico. “O Hotel Marina, quando acende...// ...os Dois Irmãos...”
E uma letra de Nonato Buzar e Chico Anysio (sim, ele também escrevia músicas) me transportava para o período áureo da cidade, quando Brasília ainda era apenas uma profecia de Dom Bosco. Rio Antigo menciona um bife no Lamas, restaurante que fica no Flamengo, a cidade sem aterro, a Cinelândia, a Lapa. É muita história.
E impossível chegar pelo aeroporto Santos Dumont e não lembrar de Samba do Avião. É tão recorrente que chega a ser um clichê. Um desvio do padrão mental que nos livra do pavor de perceber a água da Baía de Guanabara tão perto das asas do avião. Um verdadeiro hino de amor à cidade que se sobrepõe às agruras de uma metrópole que sofreu com uma decadência que parecia insuperável há vinte anos e que se recuperou, lambendo as feridas.

Dava para escrever uma coluna inteira apenas costurando frases de músicas perenes na memória das pessoas, e é muito difícil fugir da mesmice ao falar da relação do Rio de Janeiro com a música. Eu diria, para finalizar, que o Rio não é uma cidade. O Rio de Janeiro é um videoclipe.