Música de brincadeira

Se fazer música já é uma arte, quem dirá fazer música para crianças, já por natureza arteiras? Quando crescemos e nos deparamos com as dificuldades da vida de adulto, as responsabilidades, os compromissos, as reuniões, as exigências, os riscos, o que normalmente presenciamos é a tendência de deixar de lado as prioridades que tínhamos quando nosso maior problema era estudar para a prova de matemática.
Não deve ser outro motivo que faz com que músicos sintam a necessidade de compor para os pequenos apenas quando se tornam pais. Com a sensibilidade em flor ao ver aquela semente crescendo, tão distante das cruezas da vida diária, nos sentimos fortes por perceber a vitória de nossos genes preservados para mais uma geração, e vulneráveis por não termos mais controle sobre algo tão importante. Ao mesmo tempo, muitas vezes nos damos conta de como ficamos apartados de nossas lembranças de infância. Um grande exercício que se apresenta quando nos tornamos pais é o de reabilitar a empatia infantil e redescobrir o que realmente é importante a cada faixa etária que as crianças vão superando. Por isso, tantas crianças acham os pais tão chatos. Eles perderam a capacidade de se colocar no lugar de quem prioriza a diversão, e para quem a vida é sempre uma descoberta.
Por tudo isso, fazer música para crianças, que sejam realmente interessantes para elas e as mobilizem, aliando qualidade a tudo isso é um grande desafio. Admiro quem consegue conciliar toda essa gama de exigências, além de investir em um segmento que não é muito valorizado pela mídia. Não conheço outro programa de rádio que faça o que o Sonzinho faz, que é dedicar um espaço semanal às músicas que, em tese, deveriam fazer com que as crianças se apaixonassem pela música – e pelo rádio.
Felizmente, artistas como Jair Oliveira, Adriana Calcanhoto, o pessoal do Pequeno Cidadão e do Palavra Cantada se dedicam com regularidade a produzir para crianças, e, ultimamente, os lançamentos têm ficado mais frequentes. Com o nascimento de Nina, Fernanda Takai e John Ulhoa do Pato Fu ficaram inspirados e fizeram um belíssimo Música de Brinquedo.

Zeca Baleiro veio com o divertido Zoró, seu melhor álbum em muitos anos. E com o sucesso das franquias Disney, Pixar e quetais, podemos ver muitas vezes grandes músicas que mobilizam a criançada e as fazem querer mais música em suas vidas. É um alento, igualzinho ao sorriso de uma criança.