Nem vem que não tem, Simonal merece uma revisão

Wilson SimonalWilson Simonal

Ninguém sabe o duro que Wilson Simonal deu. Filho de empregada doméstica, negro, pobre, escalou cada centímetro de uma escada para as estrelas com um esforço enorme, comparado ao seu contemporâneo Roberto Carlos. Que era pobre, sim.  Mas branco, o que fazia toda a diferença naqueles tempos pré Martin Luther King. O reverendo, líder na luta pelos direitos civis, motivaria uma inspirada incursão do bissexto compositor Wilson Simonal. Que era um intérprete fantástico, mas passava longe de livros e pouco se preocupava com reflexões ou análises sobre seu papel na sociedade.

Simonal caiu, vítima de seu despreparo para lidar com a fama desmedida. Contrato milionário com a Shell, apresentação no Festival Internacional da Canção, que era transmitido pela já líder de audiência, a  Globo. Capaz de reger um coro de 30 mil pessoas em um Maracanãzinho lotado, ofuscando um astro internacional da época como Sergio Mendes, Simonal  achava que tudo podia. Inclusive usar o aparato policial da ditadura para resolver seus problemas de uma contabilidade que não fechava, em que os gastos estratosféricos conseguiam superar mesmo os ganhos abissais do maior nome do showbiz brasileiro do começo dos anos 1970. Simonal foi mané, errou feio. Passou a ser difamado como o maior dedo-duro do Brasil. Nas redações dos jornais e nas produções dos programas de televisão, em que a tendência ideológica era –e é- predominantemente de esquerda, virou um crápula, um colaborador do regime militar, um facínora. Crucificado por Henfil e Jaguar no Pasquim, ignorado pelos produtores de TV, boicotado pela indústria musical, iniciou um longo processo de agonia que o retirou das paradas, o inseriu no alcoolismo e acarretou em sua morte, assolado pelo esquecimento, em 2000.

O maior cantor popular do Brasil de todos os tempos, na definição de Ricardo Cravo Albin, estudioso da música brasileira e editor do dicionário da música popular brasileira (www.dicionariompb.com.br) . Para quem quer conhecer a ascensão e glória de Simona, que cunhou termos como patropi, simbora, tá por fora, e outros, e ainda ensinou com sua vida o risco de não se preparar para lidar com o sucesso, há dois caminhos. O mais simples é ver o documentário Ninguém Sabe o Duro Que Dei. O mais completo é ler a biografia escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre, Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal. Nos dois casos, você vai se comover, aprender e, aposto, aprender a admirar Wilson Simonal.  Aquele que cometeu um erro gigantesco, do tamanho de sua fama, e pagou com a vida, mostrando que a crueldade de uma ditadura militar tem vários lados e é disparada inclusive por quem pensa estar sempre fazendo a coisa certa.