Nostalgia, Romantismo? Não! Saudades!

O futebol não é mais o mesmo. Essa afirmação é quase clichê nas intermináveis discussões a respeito desse assunto. De um lado, os nostálgicos ? sou um deles -, do outro, os contemporâneos. Mudam-se as variações, os temas, mas a divisão de pensamentos e opiniões permanece.

Sou de uma época distante, o século passado. Freqüento estádio desde os meus oito anos. Tempos românticos eram aqueles, lembro com uma saudade invejosa, não no sentido ruim da palavra, mas por saber que não poderei senti-la novamente. E explico os por quês.

O simples fato de assistir jogos de futebol na Fonte Nova me remetia a sonhos. O fascínio de ver o torcedor incentivando seu time; o coro em alto e bom som do grito de gol; a explosão de sentimentos do ídolo comemorando junto à torcida; a felicidade do jogador ao ver seu nome ser entoado em uníssono. Tudo isso era encantador e contribuía para que, um dia, eu pensasse na possibilidade de fazer parte desse universo.

Meu maior sonho ao me imaginar um jogador de futebol era jogar em estádios consagrados. Fonte Nova, Maracanã, Morumbi, Mineirão, Olímpico. Apenas a possibilidade de entrar num desses templos era o que me movia. Fazer um gol, então, seria a realização pessoal de uma vida. Títulos viriam a consagrar, mas só o prazer de dizer ?eu joguei ali?, já me satisfazia. E acredito que a maior parte dos meus amigos, que mantinham o mesmo interesse, também.

Não se pensava na grana em primeiro lugar. Tempos de contrato, multas rescisórias, ficar rico, milionário, tudo isso eram coisas que poderiam vir com a profissão, mas não prioridades a curto prazo. Falava-se em jogar no seu time de coração, em fazer carreira por lá, vencer competições, marcar o nome da história do clube.

Como recompensa pela carreira estabelecida, pelos títulos conquistados e, principalmente, pelo seu desempenho, postura e entrega em campo, você poderia ter a honra de ser convidado a integrar a Seleção Brasileira de Futebol. Sim. Já tivemos uma época em que esses fatores eram considerados e jogadores faziam questão de defender o seu país, entendiam a nobreza e a responsabilidade que recaiam sobre eles. Bons tempos?

Tudo mudou. As pessoas, os valores, o mundo e o futebol também. Em todos os aspectos, desde estrutura, passando pelas leis, campeonatos, regras, chegando até aos jogadores. Pior, as mudanças atingiram em cheio a cabeça deles, e isso fez toda a diferença. Obviamente, eles não são apenas os únicos culpados, há um histórico que pode justificar o comportamento diferente do de outras épocas, mas a essência do que representa ser um atleta do esporte que mais mexe com a paixão do torcedor, não poderia ter ficado em algum lugar do passado.

Esqueçam a carreira, os títulos, os estádios, a Seleção. Nada disso importa mais. O objetivo de qualquer criancinha não é ser apenas jogador de futebol, não é só jogar nos grandes templos, fazer gols e ouvir seu nome gritado nas arquibancadas. Não. Os interesses agora são outros, podemos resumi-los em contratos milionários, altos salários e vida boa ao final da carreira, mesmo que você tenha passado despercebido por ela. E, claro, todo o glamour e fama que essa profissão, supervalorizada, diga-se de passagem, tem a oferecer.

Jogadores sem compromisso e irresponsáveis são os mais comuns hoje. Confiança anda em falta nesse mercado. Cinismo e falsidade imperam. No meio disso tudo, torcedor e clube travam batalhas, se expõem, pagam o preço e levam a culpa. E não há o mínimo de esperança de um horizonte promissor, pode parecer piegas, mas a tendência é piorar.

Só uma revolução ideológica muito surreal para mudar esse cenário. Será que um dia os jogadores terão salários tabelados, como a maioria dos profissionais, e terão aumento de acordo com os títulos conquistados? Vamos continuar aceitando como normal um atleta, no seu primeiro contrato, receber salários exorbitantes sem ao menos ter conquistado nada importante no seu clube? E treinadores, comissão técnica, passarão pela mesma reformulação?

A facilidade que um jogador tem de ficar rico numa simples reformulação de contrato é muito grande. E aí, como ele vai almejar títulos e conquistas? Perde-se todo interesse na profissão, justamente pelo fato de se conseguir muito rapidamente o que poderia se levar anos e muito trabalho.

Não sonho mais em ser jogador de futebol, cresci.  Hoje, acho que teria grandes dificuldades em manter esse desejo por tudo isso que explorei aqui. E também não acredito mais em reformulação. Perdi muito do meu interesse, quase não freqüento mais estádios e não compro mais canais exclusivos. Mantenho a chama acesa porque quando o sentimento é verdadeiro, ele diminuiu, mas não acaba.

Ainda me emociono vendo jogos e continuo acompanhando meu time. Já chorei e sofri mais. Estou mais comedido, sou mais frio e realista. Não me engano com declarações, com louvor a torcedor, com falsas promessas e com beijos pra torcida. Porque o futebol é esporte de clichês inéditos, e eu preciso de novos.