O corpo é o espelho da alma

Abordar o tema ?nu? na fotografia não é tarefa das mais fáceis: requer uma certa habilidade para que não caia no lugar-comum no pensamento de grande parte da opinião pública. Há uma certa confusão entre o trabalho fotográfico do nu artístico e a pornografia. Quem fotografa nu como forma de arte se irrita com certas colocações.

O nu como expressão artística surgiu no Egito, porém foi na Grécia antiga que ganhou força. O escultor Myron (450 A.C.) moldou o atleta nu em movimento de lançamento de disco. Nesse trabalho, o artista destaca o ideário de beleza e vigor físico para que os gregos percebam ali que o corpo é ligado diretamente à alma, que beleza e perfeição são indissociáveis, mostrando corpos quase que reais, na busca da perfeição.

No Renascentismo tivemos grandes nomes que aderiram ao nu, com influência muito grande no conjunto de suas obras. Como exemplo temos Donatello, com o bronze ?David? (1430). ?A Banhista? de Valpinçon,  de Jean-Auguste-Dominique Ingres, é um clássico da pintura do Neoclassicismo, bem como Michelangelo Buonarroti que começou sua trajetória artística com estudos de anatomia e realizou o seu maior trabalho no teto da Capela Sistina.

Podemos citar, ainda, dentre outros, os imortais Botticelli, Giorgione e Lucas Cranach. Este, em sua fase de nu erótico, inspirou o grande Pablo Picasso, que bebeu na sua fonte para fazer ?cuadernos eróticos?Admito que esta obra despertou meu entusiasmo criador para iniciar esse tipo de fotografia. Em uma viagem recente a Barcelona, descobri no Museu Picasso tal caderno, que eu nem imaginava que existia, e acredito que nem seja tão público assim. São mais de cem desenhos e esboços de mulheres, homens e casais, nas mais variadas posições e situações que lembram um Kama Sutra com toque de arte. Mas até Picasso sofreu discriminação por conta dessa obra um tanto ?obscura?. Numa tentativa de expor suas pinturas em uma galeria de Paris, recebeu a seguinte resposta, que não precisa de tradução: ?No quiero culos en mí Galería!? Em tese, podemos dizer que era ?perseguição?.

A instituição do modelo vivo remonta a 1648 na academia francesa, na ?école du modèle?, onde o modelo vivo era submetido a seções diárias de ensaio. A pose era sempre acompanhada e mudada pelo professor de plantão e à modelo eram concedidas algumas  benesses, como por exemplo um cargo de  funcionária do Governo a fim de atrair mais ?candidatas? e livrá-las dos obstáculos que esse profissão trazia à época.

O pintor e gravador francês Delacroix foi o primeiro a utilizar a fotografia de nu como recurso auxiliar de sua obra na década da invenção do daguerreótipo, entre 1850 e 1860, com predominância do nu feminino.  Ao contrário dos ateliers da época, na Europa, onde prevalecia o nu masculino, nos daguerreótipos o principal modelo era o feminino, que foi tomando contornos eróticos com o tempo, e por isso sendo perseguido com prisões de modelos e fotógrafos em 1851, levando artistas como Ingres a se colocarem completamente contra a nova forma de retratar o nu, e arrastando com ele um séquito de alunos.

Continuando na busca, percebi que o nu, ao longo de sua história, sofreu uma banalização em face do imenso número de publicações com foco no público masculino, tendendo a intensificar-se com o surgimento da Internet. Tal fenômeno abriu as portas da  erotização do nu a todos que podem se conectar à rede, vulgarizando assim os trabalhos de nu artístico.

É fato que a responsabilidade do crescimento desse processo de vulgarização do nu não é apenas da Internet. A rede é simplesmente  um meio atual de sua propagação. É fato, ainda, que desde o começo do Século XX milhares de publicações no mundo exaltam o nu feminino em todas as suas modalidades. Toda forma de arte exalta o corpo feminino, seja a pintura ou a arquitetura. Veja o nosso Oscar Niemeyer, que se inspirou em formas femininas para suas brilhantes criações em trabalhos que encantam admiradores dos cinco continentes. Nós fotógrafos não poderíamos ficar indiferentes a isso!

Ao garimpar mais referências de nu na fotografia, além de todos que conhecemos, encontrei Alberto Korda, cuja trajetória é inversa à minha: ele começou fazendo editorial de moda em Havana, Cuba, após encontrar a modelo Norka. Em um dos ensaios resolveu entrar no nu com a modelo: fez belíssimas fotos de Natalia Mendez, verdadeiro nome de Norka, mas não seguiu adiante. Logo após, entrou no fotojornalismo via Revolução Cubana, sendo o autor do famoso ?Olhar de Che Guevara?.

Aqui no Brasil temos o orgulho de citar, com reverência, pintores do calibre de  Victor Meirelles, com ?Moema?, Pedro Américo com ?A Carioca? e Eliseu Visconte com ?Duas irmãs?.  Iniciei uma busca, afim de entrar pelo menos como um hobby nesta área da fotografia, conheci a oficina de Rubber Seabra que funcionava em um conjunto de casas no bairro da Glória, no Rio, cheguei devagar, pois como todos devem imaginar, pelo menos os homens, fotografar mulheres nuas é o hobby que a maioria deles gostaria de ter.

Pode até parecer fácil, mas não é assim! Fotografar pessoas é difícil mesmo, nuas então nem se fala? saber o limite que falo acima, entre o sensual e o pornográfico, é tentativa de erros e acertos. Pois a sensualidade e a sexualidade está presente na nossa própria criação de imagens.

Tive um número enorme de fotos que não iam além de fotografar um corpo bonito de uma mulher. Longe de ser um fotógrafo de nu talentoso, o exercício de realizar esses ensaios com certeza me fez ver o corpo da mulher de uma outra forma.

Resumindo tudo isso, não há fotografia de nu sem ter ?a modelo?; se não houver interação não existe inspiração. O nu nada mais é do que um voyerismo pelas lentes de sua máquina que, na concepção do ensaio, tem que ser para você o buraco da fechadura, aquilo que só você está vendo, aonde só existam dois protagonistas.