O dono da bola

O time demorou para entrar em campo, e já havia o risco de perder mais uma por W.O. Não seria a primeira vez que a equipe treinava, fazia as preleções, aquecia a musculatura, mas não saía do vestiário. Os adversários, acostumados com a situação, já nem se preocupavam em esconder suas táticas, afinal, jamais seriam ameaçados por aqueles amarelões.

Naquele dia, porém, alguém decidiu calçar as chuteiras. Decidiu por si mesmo, sem seguir ordens, e sequer olhou para os lados buscando apoio dos companheiros. Simplesmente foi! Caminhou até a boca do túnel de acesso, e mesmo com o silêncio das arquibancadas vazias prosseguiu em passos lentos até o gramado, meias arriadas, sem caneleiras.

O time contra se entreolhou, e gargalhou de forma debochada ao ver aquele jogador solitário, de camisa desbotada. Só que apareceu mais um, e outro, e mais outro, até que todos se apresentaram para o jogo. Os adversários poderiam até vencer, mas já não seria como antes.

A notícia se espalhou rapidamente, e em poucos minutos o estádio estava lotado. Todos queriam presenciar este desafio! Levaram os bumbos e tambores, e começaram a entoar gritos de guerra. O cenário transbordava emoção. Coração batendo forte, corpo arrepiado, alma contagiada, o time ganhou confiança, passou a acreditar na vitória, e foi para cima.

Maldosos e cheio de artimanhas, os adversários rapidamente se armaram para o combate. Estavam surpresos com o confronto e as vaias da torcida. Onde está o respeito, perguntavam. Optaram então pela retranca, usando e abusando do antijogo. As faltas violentas eram toleradas pelo juíz da partida, que assistia a tudo passivamente, omisso, sem soprar o apito nem uma vez sequer. Cartões amarelos e vermelhos, só contra o time desafiante!

Nada, porém, iria parar aquela equipe. Movida pela garra e paixão, não se abatia com a falta de fair play. Praticando o futebol moleque, incendiava as arquibancadas com dribles desconcertantes nos zagueirões adversários. E tome gol, para delírio da galera!

Ao perceberem que não poderiam mais virar o jogo, os brutamontes quiseram mostrar seu jogo de cintura, ensaiando uma jogada para mudar de lado, virar a casaca, e assim acabar com a partida. Só que o povo agora é o dono da bola, e vai ficar em campo até que o time das raposas felpudas abandone o velho esporte bretão!