O tempo não para...

Hoje vamos fazer uma pequena viagem no tempo para mostrar um pouco da construção fotográfica brasileira. Digo um pouco diante de um tema tão vasto e rico. Este País se difere dos seus pares na América em relação ao início do processo fotográfico no mundo. Na verdade o nome ?photografies? surgiu aqui pelas mãos de Hercule Florence, francês de nascença, que chegou ao Brasil nos idos de 1820, se estabelecendo em São Carlos, interior de São Paulo, tendo participado como desenhista de algumas das inúmeras expedições científicas patrocinadas pelo governo imperial, como a do naturalista Langsdorff.

Após algumas conclusões de trabalhos, como essa última, Florence iniciou suas experiências com nitrato de prata, numa tentativa de imprimir cópias a que daria o nome de photografies. Claro que não estou dizendo que ele inventou a fotografia, experimento semelhante já estava em andamento na França pelas mãos de Joseph-Nicéphore Niépce, que tinha trabalhos de litografia e desenvolveu o processo de reprodução intitulado heliografia.

Não tenho a pretensão de citar os inúmeros experimentos pré e pós Florence no Brasil, pois não foram poucos. O que pretendo abordar aqui é como a fotografia chegou a nós, qual foi o caminho que nos trouxe essa arte que nos encanta há 186 anos. 

Podemos dizer sem medo que o encantamento de um menino de 14 anos, como o de qualquer adolescente dos dias de hoje ao se deparar em uma loja com um vídeo game de última geração, foi o grande responsável pelo inicio de nossa história com a fotografia recém-criada. Sim, após uma demonstração do capelão de um navio-escola francês que acabara de chegar ao Rio de uma viagem ao redor do mundo, Louis Compte fez sua famosa demostração no Paço Imperial, na Praça XV, antiga região central do Rio.

Compte demonstrou a mais nova invenção francesa, o daguerreótipo, obtendo uma imagem fantástica para a época, deixando o menino de 14 anos ?congelado? diante daquela mágica imagem. Claro que não era um menino comum para os padrões da época! Tratava-se do Príncipe D.Pedro II, próximo de ser o governante que mais tempo esteve à frente dos destinos do País, e que por diversas vezes se mostrara um apaixonado pelas ?artes?. Um príncipe culto diante de uma monarquia em franca decadência cultural, a ponto do seu pai, o imperador D. Pedro I, em uma frase, ter resumido a busca de uma ?boa educação? de seus filhos: ?eu e o mano Miguel havemos de ser os últimos malcriados da família?.

Então, o menino imediatamente adquiriu um daguerreótipo, sendo o primeiro brasileiro a possuir o exemplar. Nesse momento nasce a fotografia genuinamente brasileira. Evidentemente, tudo o que é novidade enfrenta dificuldades iniciais para o seu manuseio. Não tínhamos a técnica do equipamento, poucos sabiam operá-lo; os poucos recursos eram de estrangeiros que chegavam às pencas para explorar o máximo do mercado em ?expansão?. ?Fotógrafos aventureiros? da Europa e da América do Norte chegavam e saiam com a maior facilidade, alguns se estabeleciam e formavam estúdios, outros peregrinavam em busca de um Brasil ?invisível? ainda para essa nova técnica.

Um Brasil que se mostrava de forma inédita, retratistas e paisagistas corriam de Norte a Sul, aonde pudessem chegar. Entre 1840 e 1855 houve uma ?invasão? de daguerreotipistas pelas diversas capitais do Brasil, alguns arriscando também pelo interior do país.

A aristocracia, bem como negros escravos e alforriados, frequentava estúdios dos mais diversos artistas, de diferentes nacionalidades, no centro das grandes capitais. Precisamos de algumas décadas para formar o primeiro grupo de fotógrafos genuinamente brasileiros. Com alguma margem de erro, é claro, podemos afirmar que o primeiro fotógrafo brasileiro tenha sido o próprio imperador D. Pedro II, que realizou diversas imagens de posse do seu novo ?brinquedo?, mas o próprio não deixava de incentivar a vinda desse novo grupo de artistas ao Brasil, como fez com os grandes naturalistas da época, criando nessa esteira o IHGB (Instituto Histórico Geográfico Brasileiro).

Óbvio que neste momento, como já citei, começa a construção de uma identidade fotográfica genuinamente brasileira. As dificuldade não foram poucas. Tínhamos uma nação jovem, sem uma estrutura econômica saudável, e isso refletia sempre na dificuldade para aquisição de bens de consumo. Não se comprava uma novidade como um daguerreótipo da noite para o dia, por isso o grande número de fotógrafos vindo de países mais desenvolvidos como França, Grã-Bretanha e até mesmo os Estados Unidos.

De qualquer forma, destacamos alguns trabalhos importantes, como o ?retrato? de Augusto Stahl de 1865, encomendado pelo suiço Louis Agassiz. Tais trabalhos consistiam em retratos de negros (em que a historiografia se debruça ainda hoje sobre a questão de serem alforriados ou não), intitulados ?Negros puro-sangue fotografados no Rio?, que encontram-se até hoje no acervo do Museu Peabody, de Harvard, bem como de outros tipos de brasileiros mestiçados. Afinal, éramos um pais exótico no ponto de vista do estrangeiro?

De fato, a grande ?alavanca? da fotografia no Brasil e no mundo foi o início da fotografia nos periódicos. No entanto, vamos focar na imprensa brasileira para não ir muito além do que nos propomos. A tipografia já existia em Portugal antes de nossa descoberta, mas por estas terras foi proibida até o início do século XIX. Após a chegada da família real ao Brasil, em 1808, e o falso fim da censura prévia, várias oficinas tipográficas se instalaram na corte e em diversas capitais. Claro que, como todos os impressos eram voltados para a política e para o jornalismo diário, o poder de veto do governo central era cruel.

Desde então, fomos aos poucos conquistando uma liberdade cada vez maior nas publicações. Hoje temos uma liberdade quase que total, falo ?quase? pois a censura é escondida, camuflada na lei do mercado cada vez mais competitivo, mas ela ainda existe, não só no Brasil, mas no mundo. Mas isso é assunto para muito papo, e fugiríamos do nosso foco inicial, voltemos então?

O começo da fotografia na imprensa veio provocar uma mudança significativa do ponto de vista estrutural dos jornais: sai a figura do ?repórter desenhista?ou ?repórter gravador?e entra a do ?repórter fotográfico?, cuja obrigação era realizar a ?fotorreportagem?. No início tudo eram flores, ou melhor, eram paisagens, retratos de aristrocacia, coisas que no jargão do fotojornalismo atual chamaríamos de ?perfumaria?. Pouco esforço faria o colega do século passado a não ser ?registrar? uma bela paisagem para ?ilustrar?uma matéria principal do veículo em que trabalhava. Entretanto, foi assim que começou o fotojornalismo como o conhecemos hoje em dia.

No Rio, quem deu asas ao uso da fotografia na imprensa foi o desenhista e gravador Henrich Fleiuss, natural da Alemanha. Ele participou da criação do periódico ?Semana Ilustrada?, primeiro a incorporar a fotografia em suas páginas utilizando a xilografia, técnica de gravação em madeira, na época a melhor tecnologia para se imprimir em jornais.

Não obstante a Guerra do Paraguai (1864-1870), que além de ter sido o fato mais marcante da recente história brasileira foi também a primeira vez que se realizou uma cobertura jornalistica ?online? para a época, com editoriais e fotografias vindo do front de batalha, não me perguntem o ?dead line? para o fechamento desses periódicos!?

Apesar de um número grande de colegas fotógrafos terem participado da cobertura diária da Guerra, de todas as três nacionalidades envolvidas no conflito, as imagens dos horrores da guerra, como cadáveres, soldados subnutridos, pilhagem e pessoas mutiladas, nunca chegaram às nossas páginas. Tais imagens eram exibidas apenas nos diários de nossos vizinhos de fronteira (olha a censura colocando sempre as mangas de fora).

Desde a invenção, passando pelo daguerriótipo, albumina, colódio úmido e tantos outros processos que vieram depois, na tentativa da rápida obtenção de imagem, somado a uma melhor qualidade de câmeras e com preços mais acessiveis, a fotografia sempre oscilou como uma arte para poucos. Com o surgimento do filme fotográfico de 35mm e de outros formatos, as câmeras poderiam sim ser mais compactas, popularizando de forma rápida, mas continuando limitada para muitos, pois, em se tratando de Brasil, toda a tecnologia envolvida é estrangeira, nunca fabricamos nada aqui?

O processo de digitalização ocorreu rapidamente se compararmos com outras mudanças ao longo da história evolutiva da fotografia. O desenvolvimento do CCD ou CMOS, duas tecnologias que diferem apenas pelos fabricantes, e que estão presente nas câmeras atuais, na verdade é um sensor que converte a luz em código binário, é reunido em um arquivo e enviado para um cartão de memória. No Brasil como sempre acontecia, essa tecnologia demorou a chegar. Hoje não temos mais esta defasagem de lançamentos, pelo contrário, muitas vezes é lançado aqui em primeira mão.

Mas voltando, tive o privilégio de participar, em 2000, do lançamento do primeiro jornal com a fotografia toda digital do país, o Valor Econômico. Entrei no projeto já prestes a ser lançado e fui a São Paulo fazer um workshop para me acostumar à nova tecnologia. Claro que eu já tinha tido a oportunidade de usar um protótipo da Kodak no Jornal do Brasil, mas como protótipo logo teve que ser devolvida à matriz, não nos restando muito tempo de intimidade com a mesma. Na verdade o workshop era para conhecer o conceito do jornal, e sobrou tempo apenas para pegar a câmera nas caixas do armário, pois eu embarcaria em três horas para o Rio já com uma pauta para ser feita, e uma pauta cruel para quem não conhecia bem a tecnologia digital.

Sim, eu tinha uma entrevista com o Sebastião Salgado!!! Para nós fotógrafos (alguns, é claro) o papa da fotografia brasileira, atrás apenas de Evandro Teixeira. Aliás, não sei qual eu mais  admiro?. Chegando ao Rio, fui direto para o Instituto Moreira Sales, onde o Sebastião nos esperava para uma entrevista sobre seu novo trabalho, intitulado: ?Retratos de crianças do Êxodo?. Um trabalho fantástico feito com filme p&b e uma bela e atraente Leica (máquina fotográfica, viu?).

Papo vai e papo vem, eu ainda enrolado com a Nikon D3, cheirando a nova. Lógico que o entrevistado, como fotógrafo, percebeu? mas não falou nada. Elegância é isso! Quando acabou a entrevista, pedi para ele fazer uma foto mais posada e tal, pois o jornal tinha essa linha de retratos. Pois bem, ele topou e se posicionou onde eu decidi. Feita a foto, olhei no visor para ver se estava ok, começo de um vício que não existia entre nós, só víamos o resultado no laboratório, mas?

Travamos o seguinte diálogo, eu e Salgado:

- Quer ver a foto Salgado?

- Ver? Claro que não, não uso e não gosto dessas máquinas digitais.

- Bem, estou experimentando essa hoje, também não usava.

- Reparei ? olhando ironicamente para mim.

- É, vou ter que me acostumar rápido com ela!

- Boa sorte para ti, na verdade o que não gosto, e por isso nunca vou usar, é por não ter meus negativos na mão, palpáveis, e não saber como vou guardá-los, isso não me agrada mesmo!

Claro que até Sebastião Salgado se rendeu. Da última vez que eu tive notícia pela imprensa ele estava usando uma Leica digital!

Enfim, o tempo não para?