O trono do Felipão

Como de costume, as análises sobre a convocação da seleção brasileira de futebol ficaram concentradas não em quem vai para a Copa, neste caso a das Confederações, mas em quem ficou de fora. É sempre assim, e o exemplo mais conhecido até hoje é o de Romário na Copa do Mundo da 1998, quando foi cortado pelo técnico Zagalo e seu auxiliar Zico. O Velho Lobo e o Galinho justificaram o corte dizendo que Romário estaria machucado, enquanto o Baixinho dizia que poderia jogar, como de fato jogou logo em seguida pelo Flamengo. Para se vingar, o atual deputado mandou desenhá-los em situação constrangedora na porta do banheiro de um de seus negócios da época, a boate Café do Gol.

A polêmica continuou quando Ronaldo Fenômeno, na véspera da final daquela competição, teve (pela versão oficial da CBF) uma convulsão que comprometeu sua performance e, em consequência, a atuação da nossa seleção. A França não tomou conhecimento, nos aplicou um vergonhoso 3 a 0, e deixou os brasileiros ainda mais irritados com a dupla da comissão técnica. Acreditavam que com Romário no grupo a pressão sobre Ronaldo seria menor e o jovem craque não teria sucumbido, e também que o Baixinho poderia dar outra dinâmica ao jogo e colocar os franceses no bolso.

As imagens de Zico e Zagalo no banheiro do Café do Gol

A história sempre se repete, e se Ronaldinho Gaúcho tivesse perdido as esperanças de ir a sua última Copa do Mundo, certamente o banheiro de algum dos bares que ele costuma frequentar estaria estampando a foto de Felipão sentado na privada, com Parreira segurando um rolo de papel higiênico ao seu lado.

Ronaldinho, no entanto, tem que manter a linha, pois ainda pode ser convocado para a Copa de 2014 que acontece no Brasil. Para isso, basta que as apostas de Felipão não se confirmem e a seleção brasileira fracasse na Copa das Confederações. O povo vai dizer que faltou o Dentuço no time, e ele terá nova chance. Resta saber se conseguirá manter o ritmo das atuações que vem alcançando no Atlético Mineiro.

Já Ramires, outro que ficou de fora da lista de Felipão, dificilmente terá nova chance, já que sua esposa perdeu a compostura e desancou todo mundo nas redes sociais, lançando pesadas insinuações sobre a conduta ética do técnico da seleção e da própria CBF. Uma pena, pois o jogador do Chelsea tem bola para ser titular do meio campo desta seleção. Como não vem jogando muito, a ausência de Kaká já era esperada, e como nunca jogou nada, a falta de Robinho não foi nem questionada por imprensa ou cobrada pelos torcedores.

Felipão deixou Ronaldinho, Kaká e Ramires de fora da lista.

Atualmente o décimo-nono colocado no ranking da FIFA, mesmo assim o Brasil tem boas possibilidades de conquistar esta Copa das Confederações, o que provavelmente sepultaria as chances de Ronaldinho Gaúcho voltar. O grupo convocado por Felipão é de qualidade, mescla uma defesa experiente com um ataque jovem, habilidoso e veloz, e tem tudo para passar por cima dos ?russos?. A aplicação tática japonesa, a correria e paixão mexicana, e mesmo o sistema defensivo italiano não devem ser empecilho na primeira fase, se a nova Família Scolari tiver tempo para treinar, e terá. Depois pode vir a Espanha, mas de moral baixa depois do atropelamento alemão, este sim o principal rival do Brasil para a Copa de 2014, ao lado da Argentina, sempre!

Para uma competição disputada no Brasil, nada mais acertada do que a decisão de convocar jogadores que atuam nos clubes nacionais, um total de 11 atletas. Nossa seleção nunca ganhou uma Copa tendo mais da metade do time jogando no exterior. Nas três conquistas até 1970, todos os jogadores atuavam no Brasil. Nos Estados Unidos, em 1994, tivemos 50% de conteúdo nacional, e em 2002, com o mesmo Felipão, 13 dos 23 convocados atuavam em nossos clubes. Depois vieram os mundiais de 2006 e 2010, o Brasil abusou dos ?estrangeiros?, levou apenas três jogadores que jogavam aqui, e não passou das quartas.

O Brasil terá uma equipe jovem, habilidosa e veloz

Superadas, pelo menos por enquanto, as polêmicas em relação a lista, agora é ver se Felipão vai armar o Brasil para jogar como Brasil, aproveitando dentro do conjunto as características que levaram cada um dos jogadores a serem convocados por ele. E não me venham dizer que os nossos jogadores já não são os melhores, que nosso modelo está defasado, que isto ou aquilo. O Brasil só perde para ele mesmo, para seu complexo de vira-lata, e cabe ao técnico organizar e dar confiança para a garotada.

Se conseguir, nosso escrete vai levantar esta taça, Felipão voltará a ser rei, e não terá que dar mais qualquer explicação sobre Ronaldinho, Kaká ou qualquer outro jogador. Se fracassar, vai para outro ?trono?, nas portas dos banheiros Brasil afora.