O verdadeiro legado da Copa do Mundo

Quando foi anunciado que o Brasil havia vencido a disputa para sediar a Copa do Mundo de 2014, começou a se profetizar benefícios econômicos bilionários. A chegada de hordas de visitantes consumistas, publicidade das cidades anfitriãs para telespectadores do mundo todo, os estádios e toda a infraestrutura que ficaria como legado para a população.

Com a proximidade do início da Copa, porém, fomos observando que as coisas não aconteceram como sonhávamos, não acontecerão, e pensando friamente não era para acontecer mesmo. Com base no histórico dos países que sediaram esta e outras competições de grande porte, como os Jogos Olímpicos, está mais do que comprovado que sediar torneios esportivos de modo algum deixa um país ou as cidades-sedes ricas.

Para começar, o número de turistas que virá ao Brasil exclusivamente para assistir aos jogos de futebol é relativamente pequeno. Considerando que cerca de 75% dos ingressos para assistir aos jogos foram destinados aos brasileiros e que em todos os estádios, do início ao fim da disputa, serão 64 jogos em estádios de cerca de 50 mil espectadores, o número de visitantes estrangeiros representa, no máximo, 800 mil pessoas, que serão distribuídos em diversas cidades do Brasil. Apenas como comparação, no Carnaval do ano passado, só o Rio de Janeiro recebeu mais de 6 milhões de turistas, sendo quase 1 milhão de estrangeiros.

O Carnaval no Rio atrai muito mais turistas do que a CopaO Carnaval no Rio atrai muito mais turistas do que a Copa

Talvez esta seja nossa sorte, pois os investimentos em infraestrutura não vieram, e não conseguir receber adequadamente os visitantes estrangeiros teria uma consequência completamente oposta ao propagado objetivo de ganhar publicidade positiva, e seríamos ridicularizados no exterior, afetando o fluxo de turistas que ainda pretendem vir ao Brasil para o passar o Réveillon, Carnaval ou as férias nas praias do litoral.

Claro que ainda corremos este risco, se por exemplo algum turista se ferir em uma tentativa de assalto. Já aconteceu antes, por motivos diferentes, especialmente com a Grécia nos Jogos Olímpicos de Atenas e com a África do Sul na última Copa do Mundo, países que tiveram expostas suas mazelas aos telespectadores de todo o Planeta.

Aliás, a Grécia, como se sabe, ainda está afundada em dívidas, e os novos estádios da África do Sul não deixaram a população mais rica. A população de Soweto continua sobrevivendo em barracos de madeira, que poderiam ser transformados em habitação digna se os bilhões de dólares despejados na construção de estádios fossem revertidos para esta finalidade.

A realidade da pobreza não muda com a Copa do MundoÁfrica: a realidade da pobreza não mudou com a Copa do Mundo

Em julho de 2014, quando o último dos torcedores tiver deixado o estádio, o faturamento for contabilizado, e os custos extras de nossas obras forem somados, ficará claro que apenas os donos das construtoras e seus padrinhos políticos enriqueceram.

Para a população brasileira, alguns podem argumentar como último alento deste malfadado projeto, ficará a felicidade, e mesmo estes otimistas têm que admitir que a alegria pode se desfazer rapidamente se o Brasil não vencer. Não devemos esquecer, ainda, que a esmagadora maioria dos brasileiros não irá aos estádios assistir a Copa do Mundo, então a competição poderia acontecer em qualquer canto do Planeta, pois eles estarão sentados no mesmo lugar, vendo o jogo pelo mesmo quadrado da televisão.

Pior, para atender o Padrão (ou patrão?) Fifa e viabilizar o desvio de recursos públicos nas obras, os estádios ficaram caríssimos, e quem está pagando o custo é o torcedor de futebol. Após as reformas, nos jogos dos clubes de futebol pelo Campeonato Brasileiro o bolso de quem saiu de casa para vibrar com seu time ficou bem mais vazio. O maior exemplo do disparate ocorreu logo com a mais popular das torcidas, a do Flamengo, que teve que pagar entre R$ 250 e R$ 800 para assistir a disputa da Copa do Brasil.

Até agora este é o verdadeiro legado da Copa do Mundo Verde e Amarela: sonhou com o verde dos dólares estrangeiros, e acordou com o sorriso amarelo.