Olhai por nós...

Bem, como prometido no último post vamos a história do Cristo, de como se descobre fobias em momentos difíceis por vezes. Estava trabalhando no jornal Valor Econômico, diário voltado exclusivamente para economia, quando em uma manhã recebo uma ligação do editor de fotografia, que ficava em São Paulo. ?Perez, estamos precisando de uma foto diferente do Cristo, temos uma matéria no caderno de cultura sobre os 50 anos da estátua, precisamos de uma foto emblemática? Ora bolas, foto emblemática do Cristo, só paulista para pedir mesmo! Qual a foto que nunca foi feita do monumento?

Arrisco a qualquer um a pergunta, sinceramente não existe ângulo não explorado desse cartão-postal, e nem de nenhum outro no mundo. Mas voltemos ao tema, o dia estava lindo como podem ver nas fotos, céu azul de inverno que nós fotógrafos adoramos, e um dia que prometia ser muito quente, como acontece no Rio o ano todo, independe da estação. Fui para a ?missão? com um gosto de que ia ser quase impossível que eu tirasse algo mais do que uma boa foto, mas fui tentando entender o pedido deveras emblemático em questão.

Era uma segunda-feira bem cedo, poucos turistas estavam na base do monumento, o Cristo passava pelo final de uma reforma, onde os andaimes que o cobriam já tinham sido retirados, pois muito que bem, eu cheguei na base, fui até o final do mirante, onde se vê todo o Rio, e fiquei ali uns 10 minutos que me lembre, olhando o Rio e o Cristo, revezando o olhar. Não pense que isso é um exercício antes de fotografar não, na verdade o que passava na minha cabeça era o seguinte: ?Que foto nova vou fazer aqui de cima hoje??

Fiquei ali olhando o Cristo e o Cristo me olhando, depois alguns cliques bem ao estilo turistão americano, e novamente o vazio de idéias. Pensei em ligar para o editor e mandar ele e a ?pauta emblemática? dele às favas, que nada mais do que uma foto de turista poderia sair dali.

Quando eu estava desistindo de algo mais, surge um operário saindo de uma portinha na base que fica atrás do monumento, acima da porta da capela. Pergunto ao operário se ainda estava em obra, já que não tinha visto nenhum movimento ali, e ele me confirma que naquele momento a obra estava no interior. Aí que tive a idéia de subir, idéia de jerico na verdade, depois vocês irão ver.

Sem saber como iria entrar, já que certamente não iriam deixar eu subir, fiz uma breve leitura na placa da obra, e descobri que era parte bancada pela Fundação Roberto Marinho. Voltei ao funcionário da empresa e disse que precisava subir para fazer uma foto, com a maior propriedade, como se eu fosse o engenheiro-chefe.

Ele me fala, é claro, que não daria, pois sua ?chefia? imediata não estava ali. Na mesma hora tirei um crachá do Infoglobo (o Valor funcionava no mesmo prédio do Globo e era do mesmo dono) e disse para o dito funcionário que estava fotografando a obra para a Fundação e tal, lorota de fotógrafo né?, e que depois minha ?chefia? entraria em contato com a dele para formalizar a coisas.

Bem, mentira aceita, fui subindo para o interior do Cristo, nunca tinha entrado ali. Nessa mesma hora me veio um certo arrependimento de pedir aquilo, mas agora desistir era difícil. O interior do monumento, para quem nunca entrou, é uma estrutura de concreto, com um cem números de degraus que levam ao topo, em zig-zag, com uma bifurcação perto do coração, na qual uma parte vai para o braço direito e outra para o esquerdo.

Fui subindo e o funcionário sugeriu que eu deixasse a bolsa ali embaixo, pois se eu quisesse ?entrar? no braço iria ter dificuldade. Segui seu conselho e peguei apenas a máquina e uma grande angular, também não precisaria de muito mais. Chegando no meu objetivo, que era o braço esquerdo, olhei o caminho até o pulso, local em que o funcionário tinha me dito que havia uma janela por onde poderia sair e fotografar. Tudo isso, é claro, sem a menor segurança, pois estava ali mais do que clandestino.

O tal caminho até a janela era muito difícil, todo segmentado, com uma passagem em que só cabe uma pessoa deitada, para seguir se arrastando, e se for um pouco fora do peso se complica. Eu tinha que colocar, a cada segmento, a máquina na frente e passar depois. E ali eu me arrependi de vez! A sensação foi das piores que senti, não sabia que odiava lugares apertados até experimentar isso. Quase desisto no meio, mas até isso era difícil, e na medida em que eu ia me aproximando da janela, suava frio.

Quando finalmente cheguei e coloquei metade do corpo para fora, pois de joelhos ali metade do corpo fica para fora da janela, a sensação foi maravilhosa. Sim, porque apesar de tantos fotógrafos já terem feito imagens daquele ângulo, eu me senti um privilegiado, como se somente eu tivesse descoberto aquele Rio que se mostrava na minha frente, como se o mundo tivesse parado naquele segundo, um silêncio gostoso de se ouvir.

Nada importava ali de cima, tudo era menor na escala, uma sensação de onipotência toma conta por alguns segundos? Isto até eu me ver realmente aonde estava: um braço de concreto armado, a 710 metros do nível do mar, e pior, tendo que voltar por um caminho que me revelou uma fobia. Deixei esses pensamentos de lado por alguns minutos e comecei a fotografar. Poucas fotos eu poderia fazer, pois o ângulo é um só, mas acho que o medo de retornar era tão grande que gastei dois cartões de 500 mb, que na época era dos maiores. Variei muito pouca coisa. A única maneira de fazer uma outra imagem fora essa que apresento a vocês, seria ir para o outro braço, coisa que nem cogitei na verdade.

Findo as fotos possíveis, começo a pensar na volta, e uma angustia me toma, o medo me prendendo ali em cima, é a tal da fobia. Em momento nenhum com metade do corpo para fora senti algum tipo de temor, mas a simples lembrança de voltar a passar por dentro do braço me angustiava. Pensei em ligar e pedir ajuda, mas cadê o celular? Estava na bolsa, 38 metros abaixo. Eu estava completamente só ali, nem o funcionário subiu comigo, só eu e mais nada. Depois de exatamente uma hora após ter decidido descer é que consegui reunir forças suficiente para encarar essa fobia que até então eu não conhecia.

É claro que o resultado está aí em apenas uma imagem, nada demais se comparado a outras do mesmo ângulo, em que colegas amanheceram no Cristo, e posso citar uma dezena deles, alguns amigos, mas apesar do sufoco que contei, da descoberta de um medo que não conhecia, o produto final é maravilhoso: ver uma cidade daquele ângulo, sabendo que poucas pessoas têm esse privilégio.

Não sou um ufanista, não acho o Rio a cidade mais bela do mundo, mas estar lá sozinho me deu orgulho de pertencer a esse pedaço do mundo, nem que tenha sido por um segundo?