Os negros e a melhor música do planeta

Muita gente assistiu a 12 Anos de Escravidão, filme ganhador de Oscar, aclamado pela crítica e dirigido por Steve McQueen. No Brasil, apenas nos cinemas, 500 mil pessoas foram ver a história de Solomon Northup que, mesmo livre, foi sequestrado do norte abolicionista dos EUA e levado ao sul escravocrata, vendido e levado a sofrer os horrores do trabalho escravo em 1841, alijado de esposa e filhos e condenado à morte quase certa em fazendas em que a jornada de trabalho desumana ainda era somada a castigos cruéis e humilhantes.
Não é preciso dizer que poucos leram o livro. Também é desnecessário assinalar que, como quase sempre acontece, o livro é melhor que o filme. Por ser mais abrangente, por equilibrar melhor o peso entre os personagens e, evidentemente, por trazer, sem intermediários, todo o sentimento do protagonista de uma história tão impactante e inacreditável quase duzentos anos mais tarde. Lendo o livro, fica claro que o ocorrido com Solomon não era tão raro assim naqueles tempos. O incomum era haver um escravo que, alfabetizado, pudesse redigir um relato tão bem escrito e pungente quanto o eternizado nas páginas de Doze Anos de Escravidão, o livro. Outra característica marcante de Solomon, que acabou por jogá-lo nesta tragédia ao receber um convite para um trabalho extra e que por vezes o salvou de um destino pior ainda era a sua aptidão musical. Violinista, era chamado para tocar nas festas da região, o que rendia algum dinheiro e eventualmente um precioso refresco da lida brutal que o aguardava na fazenda, no cultivo de algodão ou cana. “A raça africana ama a música, como se sabe: e muitos entre meus companheiros tinham órgãos de sensibilidade acústica incrivelmente desenvolvidos e sabiam dedilhar o banjo com habilidade...”, assim Solomon começa a descrever os momentos em que a música do seu violino era tão solicitada que recebia convites vindos de fazendas a dezenas de quilômetros de distância. Como ele, quantos grandes músicos foram torturados neste período execrável da história da humanidade, nos privando do talento que sobreviveria na música negra que, não por outro motivo, fez desta arte realizada nos EUA e no Brasil as melhores do mundo. É irônico que uma mancha tão grande na história da humanidade tenha proporcionado, com a miscigenação ocorrida na América, o nascimento de uma música tão pulsante, rica e sem a qual não pensamos poder viver. Samba, blues, rock, jazz, bossa-nova, baião. Tudo nasceu na África.