Pequenas coisas

Sob o olhar de um cronista, tudo pode ser convertido em palavras. Palavras formam frases. Frases formam parágrafos, parágrafos formam textos. Textos, quando lidos, permitem que as pessoas possam viajar, refletir, lembrar, planejar? Conjugar tantos verbos quanto se é possível. Tudo a partir de um olhar.

Daí que tudo o que vivemos pode se tornar fonte de inspiração. Nosso olhar está sempre em busca de uma situação, um momento, uma história? Pelo menos eu estou. A única coisa é que todas as vezes que eu percebo algo que poderá render uma crônica, eu estou sem papel e caneta. Incrível isso.

As histórias que eu consigo me lembrar, acabam neste espaço. Outras, perdem-se no vão da memória. E eu só lamento, porque já perdi muitas histórias?

Esta introdução toda foi porque, dia desses, eu estava caminhando no Centro de Mogi e pronto: tudo o que acontecia parecia seguir um roteiro pré-concebido. Na minha cabeça, esta crônica deveria ser chamada de ?Coisas Irritantes?.

Primeiro, na fila da farmácia. Uma fila enorme. Da mesma maneira que todos aqueles produtos dispostos próximos ao caixa podem ser úteis ? às vezes nos esquecemos de pegar alguma coisa e, em uma incrível estratégia de venda, lá estão eles -, os mesmos produtos podem se tornar uma dor de cabeça. Foi o que aconteceu: a mulher que estava no caixa resolveu olhar produto por produto. Ficava em dúvida, devolvia. Pegava outro. A fila crescendo?

Então, estamos na época de promoções. Fim de ano chegando. ?Senhora, se a senhora gastar mais R$ 4,00 a senhora pode escolher entre isso, aquilo ou aquilo outro?, diz a caixa, em um tom monótono, de quem decorou a fala igual a uma operadora de telemarketing. ?Não sei. O que no isso? E no aquilo? E no aquilo outro??, pergunta a cliente. A ladainha continua. Primeiro a cliente vai escolher algum produto para totalizar o valor. Mais um tempo. Daí ela finalmente escolhe o brinde. Chega a hora de pagar. A fila parada, crescendo?

O comércio, aliás, é um serviço complicado ? atenção, empresários, treinamento para seus funcionários nunca é demais, especialmente com o Natal chegando! Entro em uma loja de sapatos com a minha mãe. Enquanto olhamos a vitrine, dois vendedores batem papo atrás de nós, e um terceiro canta. Vou para o outro lado, olhar outra vitrine. Quando encontro o que eu quero, nenhum deles pode me atender. Afinal, estão conversando? ou cantando. Saio da loja xingando. Bom que eu aprendo rápido e não volto mais.

Na saída da loja, uma moça fala ao celular. Fala, não, grita. E todo mundo ouve a conversa. Melhor que ela, só um rapaz que eu vi outro dia no trem, que falava ao celular por meio daquele fone de ouvido com microfone. Ele era tão expressivo, gesticulava? Se não percebesse que estava falando ao celular, provavelmente teria pensado que ele era maluco.

Apesar de tantas manifestações de desconsideração ao próximo, esta crônica tem um final feliz. Ainda bem. Percebi que apesar de tudo, as pessoas sabem ser gentis, como a moça que apoiava uma senhora que caminhava pela rua, ou ainda a mãe que carinhosamente levava o filho no colo, apesar de ele já ser grandinho para isso. Vi crianças sorrindo, namorados se abraçando. E tudo isso deixou toda a minha irritação para trás.

Amanda de Almeida